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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre o ateísta Flew

Antony Garrard Newton Flew filósofo inglês que defendeu o ateísmo por cinqüenta anos, faleceu em 2010 aos 87 anos. Muitos estudiosos e filósofos o comparavam ao mais famoso ateu da atualidade, Richard Dawkins. De repente: “Sim, eu mudei de opinião!” Longe do ambiente acadêmico na velhice tornou deísta.

Lá pelas tantas do livro “Deus existe” há um breve relato de como abandonou o ateísmo. Percebe-se questionamentos sobre: criacionismo; o que a ciência não explica; origem da vida; inteligência; as leis da natureza e a humanidade; coisas que surgiram do nada. Indaga ele, a menos que tenha sido criada. Pronto! Flew já crê na onipotência dando a entender que a religião, em particular a cristã, pode ser verdadeira. Também aceita a explicação da ressurreição como maravilhosa e encerra dizendo que “Deus é poderoso” e com “Amém”.

Bem! Dizem que o livro não foi escrito por Flew e sim pelo pastor que não é mencionado Bob Hostetler e pelo também criacionista, Roy Varghese. Tudo indica que Flew realmente se tornou deísta, no entanto, ninguém sabe ao certo, já que sempre mudava de opinião ou era contraditório em seus escritos.

Celebrado entre os ateístas, contudo nunca foi “fervoroso” ateu, nem tampouco “fervoroso” deísta. Explorado por cristão e atacado por ateus que o chamavam de caduco.

A cerca do livro, ele mesmo admitiu a um jornalista: “Isso é na verdade coisa do Roy”, disse Flew... “Ele mostrou para mim e eu disse tudo bem. Estou muito velho para esse tipo de trabalho!”.

Ateus inconformados disseram que o livro era de Varghese, porém foi atribuída a Flew a declaração: “Meu nome está no livro e ele representa exatamente minhas opiniões. Eu não colocaria meu nome em um livro cujo conteúdo eu não concordasse 100%. Eu precisei de alguém para escrevê-lo, pois eu estou com 84 anos e esta foi a tarefa de Roy Varghese. A idéia de que alguém me manipulou porque eu estou velho está completamente errada. Eu posso estar velho, mas é difícil me manipular. Este é meu livro e ele representa meu pensamento”.

Entre verdade e mentira uma coisa é certa: a veracidade de um ateu sempre é questionável!.
Segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, onipotente e onisciente”. Flew

http://scienceblogs.com.br/100nexos/2008/11/antony-flew-ex-ateu-garante-deus-existe/  
http://viveraluzdapalavra.blogspot.com.br/2012/02/um-ateu-garante-deus-existe-de-antony.html

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Liberdade?

Talvez seja utopia a liberdade que dizemos ter.
A filosofia entende a liberdade humana, primeiro como independência, ausência de submissão, em seguida como autonomia, ou seja, aquele que governa a si mesmo.

Mas, o que dizem filósofos e pensadores sobre essa tal liberdade?

► Para os gregos, a liberdade é via de mão dupla: de um lado independência do outro, obediência (lei). Eles têm uma noção de liberdade ambígua: “liberdade pela lei, mas sujeição à lei”. A cidadania liberta com uma mão e com a outra exige obediência, obrigações.
► Conforme Erasmo há também a idéia cristã, da submissão à autoridade.
► Em Descartes deseja-se liberdade e essa vontade depende de muitos fatores.
► Para Spinoza ser livre é agir de acordo com a natureza. A liberdade realizada em sua totalidade implica saber assumir e responder tais consequências.
Lutero afirma que o cristão é livre e desobrigado de qualquer lei se viver na fé, a liberdade é espiritual, sem conotação política.
► Em Locke política e filosofia andam juntas na busca pela liberdade, um bem que devemos proteger. Ele associa liberdade e propriedade
► Segundo Rousseau o Homem só é livre quando obedece as leis, prática possível de realizar: "Um povo livre obedece, mas não serve; tem chefes e não senhores; obedece às leis, mas só obedece às leis; e é pela força das leis que não obedece aos homens." Para ele a solidariedade vem antes da liberdade.
Leibniz, senhor de um enorme intelecto e ricas observações, que tentou unir em vão católicos e protestantes, nos faz entender que desconhecemos os desígnios e a totalidade de Deus, mas sabemos da Sua onipotência e bondade. Isso assegura que o mundo contém o máximo de coisas boas. Deus prefere que conheçamos os reais motivos pelos quais vivemos. Assim temos livre-arbítrio para agir dentro da moral e da razão.
► Em Schopenhauer, a ação humana não é absolutamente livre. O homem não escolhe o que deseja. Logo, o que parece liberdade é uma ilusão ocasionada pela pressão exercida sobre o aspecto do caráter.
► A liberdade para Sartre revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade, ele só não é livre para não ser livre. Está condenado a escolher e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva. Então surgem escapatórias de má-fé que o isentem da responsabilidade de suas decisões. Em Sartre liberdade é uma penalidade. "O homem está condenado a ser livre".
► Para Pecotche, a liberdade é prerrogativa natural do ser humano. Já que nasce livre, embora não se dê conta até o momento em que sua consciência o faz experimentar a necessidade de exercê-la como único meio de realizar suas funções primordiais da vida e o objetivo que cada um deve atingir como ser racional e espiritual. O conhecimento é o equilíbrio das ações humanas e em consequência, ao ampliar os domínios da consciência, é o que faz o ser mais livre.
► Segundo Kant, liberdade é autonomia, direito do indivíduo racional, através do conhecimento das leis morais e não apenas pela própria vontade da pessoa. Para ele a liberdade é o livre arbítrio e não deve ser relacionado com as leis.
► Em Karl Marx a sociedade se divide em proletários e capitalistas assim sendo, a liberdade é a busca para se escapar da necessidade. "O reino da liberdade começa onde termina o reino da necessidade". Hoje, talvez a liberdade seja o tempo livre que não se vende.
Mikhail Bakunin fala da liberdade real baseada na educação e na condição material. No sentido negativo liberdade e autoridade, não se combinam.
► Conforme Guy Debord liberdade é uma ilusão. Na sociedade capitalista a única liberdade que existe é a liberdade de escolher qual mercadoria consumir impedindo que os indivíduos sejam livres na sua vida cotidiana. Temos que escolher sempre entre duas ou mais coisas pré-determinadas por outros.
► Para Philip Pettit no Estado há uma série de particularidades, dentre elas a existência e uso do monopólio do poder coercitivo cujos membros não se desvinculam. Como ser livre submetido ao poder do Estado? Enfim...
... pessoas sujeitas as regras não são livres, mas se forem esclarecidas têm sensação de liberdade e confortavelmente assumem que para se viver em sociedade as regras se fazem necessárias. A liberdade do outro termina onde começa a dele. Pode-se querer ir e vir, desde que (condição) não prejudique ninguém. Antes que o indivíduo tenha “liberdade”, a ética o ensina ter regra para não passar sobre princípios legais. Toda vontade será exercida nos limites da lei.

Conhecendo a natureza humana no mundo moderno é possível ser o homem totalmente dono de si? Evidente que sim! Mesmo sob tais regras é grande a possibilidade de se viver muito bem.

Carpe Diem expressão latina que significa a “colha o dia” ou “evite gastar o tempo com coisas inúteis”ou “aproveite o momento” tirada de um poema do poeta romano Horácio (65 - 8 AC), que interessado no epicurismo e no estoicismo ( nas suas Odes, I, 11, 8 “A Leuconoe”) tenta persuadir Leuconoe a aproveitar o agora e dele retirar todas as suas alegrias.
"Tu não indagues (é ímpio saber) qual o fim que a mim e a ti os deuses tenham dado, Leuconoé, nem recorras aos números babilônicos. Tão melhor é suportar o que será! Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último o que agora debilita o mar Tirreno nas rochas contrapostas, que sejas sábia, coes os vinhos e, no espaço breve, cortes a longa esperança. Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confiada no de amanhã."  Horácio

domingo, 3 de julho de 2011

A saga filosófica

Filosofamos quando questionamos ou tentamos solucionar sobre a existência humana e o universo. Já ouvimos muito mas sempre é bom repetir que a filosofia é uma palavra que vem do grego e significa: amor ao saber.
Escola de Atenas - Aqui Rafael nos apresenta os mais importantes filósofos, matemáticos
e cientistas da Antiguidade. Detalhe ao centro onde Platão segura o Timeu e aponta para o alto
identificado com o ideal o mundo inteligível e Aristóteles segura a Ética e a mão na
horizontal, representando o terrestre, o mundo sensível.
No século VI a.C., Antes de Sócrates - A primeira corrente do pensamento surgiu na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. e os sophos (sábios) explicavam muitas coisas racionais, com base na mitologia. Os filósofos Pré-Socráticos como os físicos Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito eram preocupados com o Universo e com fenômenos naturais, se explicavam através da razão e do conhecimento científico. A idéia de que tudo preexiste à alma, por ser imortal era de Pitágoras. Demócrito e Leucipo defenderam a formação de todas as coisas, a partir da existência dos átomos.

Período Clássico - Os séculos V e IV a.C. foram de grande desenvolvimento cultural e científico. A esplendorosa Atenas e seu sistema político democrático proporcionaram o desenvolvimento do pensamento. Época dos sofistas e de Sócrates. Os sofistas, Górgias, Leontinos e Abdera, defenderam a formação do cidadão pleno para atuar politicamente no crescimento da cidade preparado para falar bem ( retórica ), pensar e manifestar suas qualidades artísticas. Sócrates refletiu sobre o homem, buscando entender o funcionamento do Universo dentro de uma concepção científica, para ele a verdade estava intimamente ligada ao bem moral do ser humano. Ele nada registrou, só conhecemos suas idéias através de Platão seu discípulo, que defendia a função de entender o mundo da realidade, separando-o das aparências. Nesta época Aristóteles desenvolveu os estudos de Platão, de Sócrates e a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao conhecimento científico. A sistematização e os métodos foram desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos.

Depois de Sócrates - O Período Pós-Socrático vai do final do período clássico (320 a.C.) até o começo da Era Cristã e representou o final da hegemonia grega política e militar.
- Ceticismo: segundo os céticos, a dúvida é sempre presente, pois ninguém conhece forma exata e segura de nada.
- Epicurismo: conforme os seguidores de Epicuro, o bem origina da prática da virtude, desta forma corpo e alma não sofrem para chegar ao prazer.
- Estoicismo: os estóicos como Marco Aurélio e Sêneca terminantemente defenderam a razão. Fenômenos exteriores a vida como a emoção, o prazer e o sofrimento eram irrelevantes.

Idade Média - O Pensamento Medieval influenciado pela Igreja definiu as formas de sentir ver e pensar com o teocentrismo (Deus no centro de todas as coisas). Conforme o importante teólogo romano Santo Agostinho, o conhecimento e as idéias eram de origem divina. Buscar-se-iam nas Palavras de Deus as verdades sobre todas as coisas. Mas do século V até o século XIII, a Europa ganha uma nova linha de pensamento: a escolástica, ou seja, várias idéias com o objetivo de unir o pensamento racional de Platão e Aristóteles à fé. São Tomás de Aquino foi o principal representante.

Modernidade - No fim da Idade Média nasceu o pensamento moderno, a burguesia, o Renascimento Cultural e Científico. Ganharam novos rumos os modos de pensar sobre o mundo e o Universo: a definição do conhecimento deixou de ser religiosa e entrou no âmbito racional e científico; o teocentrismo deu lugar ao antropocentrismo (o homem no centro de todas as coisas); Descartes criou o cartesianismo e considerava a razão base de todo conhecimento.
- No século XVII, o inglês Bacon ensaiou o método experimental, conhecido como empirismo, Hobbes e Locke desenvolveram seus pensamentos. A sociedade burguesa em crescimento econômico e político aderiu seus ideais ao empirismo e idealismo.
- No século XVIII aparece o iluminismo em pleno século das Luzes . A experiência, a razão e o método científico foram as únicas formas de obter conhecimento. Nesta época tivemos Kant, Hegel, Montesquieu, Diderot, D'Alembert e Rosseau. O homem sai do desconhecimento.
- Século XIX - Comte foi destacado pelo positivismo. O ideal de uma sociedade baseada na ordem e progresso influencia nas formas de refletir sobre as coisas. A história falou por si e o método científico controlado e medido, foi a única maneira de se chegar ao conhecimento. Neste mesmo século, Marx partoria a teoria marxista no método dialético do materialismo histórico para entender a sociedade e assim modificá-la. Com a revolução proletária, a burguesia sairia do controle dos bens de produção e os trabalhadores assumiriam o controle. Também neste contexto, Nietzsche críticou duramente aos valores tradicionais da sociedade, representados pelo cristianismo e pela cultura ocidental afirmando que o pensamento que liberta se for livre de qualquer forma de controle moral ou cultural.
- Século XX - Na Contemporaneidade há várias correntes de pensamentos simultâneas. Com o italiano Gramsci, os franceses Lefebvre, Foucault, o argelino Althusser e o húngaro Lukács surgiram novas propostas e releituras do marxismo. Graças aos estudos estruturalista do belga Lévi-Strauss a antropologia tornou este período uma importante influencia ao pensamento. O maior representante da fenomenologia (descrição das coisas percebidas pela consciência humana) foi Husserl. Devido às reflexões do existencialista Sartre a existência humana ganha enaltecidade.

Será?

sábado, 14 de maio de 2011

Sobre Henri Bergson

Henri Louis Bergson [Paris – 1859/1941] - filósofo preocupado com a fé e a inteligência, educado nas exigências judaica. Morre ao longo da ocupação nazista na França, depois de se converter ao catolicismo. Segundo a sua filosofia ha quatro idéias fundamentais:
► "Intuição" essa espécie de simpatia intelectual pela qual nos transportamos ao interior de um objeto para coincidir com aquilo que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível. Essa forma de conhecimento interior e absoluto contraria a tendência espontânea de nosso espírito. A inteligência, a ciência, a técnica, a vida social, etc., nos afastam das coisas e de sua interioridade, porque esta representa o ser contraído (tensão), enquanto aquelas atividades não podem organizar-se senão sobre o ser em repouso (distensão). A inteligência conceitual desloca a realidade do tempo para o espaço, suprimindo o fluxo que a constitui e fixando-lhe contornos precisos e permanentes, através dos quais ela se torna suscetível de ser "definida" e "utilizada". Nesse caso, a "durée" é materializada. Matéria é uma das metades da natureza, pela qual se distende e se faz conhecer fora de si mesma. A oposição entre matéria e espírito, entre tensão e distensão, não é concebida em termos dualistas, mas como impulsos constitutivos da mesma "durée". Para ir de um a outro, a "durée" percorre uma série de alterações qualitativas. Seja lá como for a verdade suas noções de matéria e de espírito são bem pouco convencionais.
► "Durée" instituindo-a no momento global e unido que compreende a sua trajetória. O seu fracionamento em instantes separados - em "paradas" ou imobilidades sucessivas - representa a espacialização do que é temporal. O tempo é "durée" na medida em que ele próprio constitui a substância, isto é, na medida em que "substância" é "alteração". Depois de estudar a alteração, através da qual a "durée" se diversifica, Bergson procura identificar o processo oposto: o da unificação, o "reencontro do simples como uma convergência de probabilidade".
► “Memória” no entanto, o tempo é - simultaneamente - inseparável da consciência e também - já que fluir é a essência do ser e de todo universo. Tempo é duração, duração é memória e memória é vida. E a vida, para Bergson, nada mais é do que criação contínua. Mas também é memória, memória de si mesma e de suas aventuras nos labirintos do tempo.
► "Elan vital" é a virtualidade da "durée" que cria direções diferentes pelo simples fato de crescer. A "memória" integra os diferentes momentos da "durée", absolutamente diferentes entre si, mas unificados numa totalidade movente. Defende a existência de um "élan vital" que cria incessantemente todas as coisas, Essa evolução seja resultado da ação do élan ou impulso vital sobre a matéria bruta. Trata-se, na verdade, de uma "evolução criadora", onde tal impulso, ainda que seja uno, cria continuamente, a partir de séries divergentes, a novidade e a diferença. É nesse sentido que Bergson diz que "a vida é pura zona de indeterminação"

Sua originalidade reside, fundamentalmente, no tipo de ruptura que ele introduz no racionalismo do século 17. Para ele, a filosofia não só se distingue da ciência, como mantém com as coisas uma relação que é o oposto da relação científica. Uma é o conhecimento do absoluto, e outra, do relativo. Um absoluto não poderia ser dado senão numa intuição, ao passo que todo o resto depende da análise.

Em poucas palavras, a evolução em Bergson tem um caráter progressivo, isto é, evoluir significa aperfeiçoar-se e, nesse caso, trata-se de um aperfeiçoamento da própria vida (que é entendida como um "em si", como um princípio vivificador, ou seja, ela é o próprio élan, o impulso vital).

Bergson reconhece sua filosofia como dualista. Temos, de um lado, o élan e, de outro, a matéria bruta, ou seja, dois princípios: um espiritual e outro material.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre Saramago

José de Sousa Saramago (1922/2010)
escritor português galardoado com o
Nobel da Literatura em 1988.




Traduzir
Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos (supondo que o ver e o sentir, como em geral os entendemos, sejam algo mais que as palavras com o que nos vem sendo relativamente possível expressar o visto e o sentido…) para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo.

O trabalho de quem traduz consistirá, portanto, em passar a outro idioma (em princípio, o seu próprio) aquilo que na obra e no idioma originais já havia sido “tradução”, isto é, uma determinada percepção de uma realidade social, histórica, ideológica e cultural que não é a do tradutor, substanciada, essa percepção, num entramado linguístico e semântico que igualmente não é o seu. O texto original representa unicamente uma das “traduções” possíveis da experiência da realidade do autor, estando o tradutor obrigado a converter o “texto-tradução” em “tradução-texto”, inevitavelmente ambivalente, porquanto, depois de ter começado por captar a experiência da realidade objecto da sua atenção, o tradutor realiza o trabalho maior de transportá-la intacta para o entramado linguístico e semântico da realidade (outra) para que está encarregado de traduzir, respeitando, ao mesmo tempo, o lugar de onde veio e o lugar para onde vai. Para o tradutor, o instante do silêncio anterior à palavra é pois como o limiar de uma passagem “alquímica” em que o que é precisa de se transformar noutra coisa para continuar a ser o que havia sido. O diálogo entre o autor e o tradutor, na relação entre o texto que é e o texto a ser, não é apenas entre duas personalidades particulares que hão-de completar-se, é sobretudo um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se.” - José Saramago

A questão aqui não é sobre o que Saramago escreve e sim a reação que seus escritos causam às pessoas, no fundo pelo que vimos, muitos tiveram uma reação caimista. Saramago como a maioria dos ateus (caso ele seja um) briga com Deus, então vem a pergunta: como se briga com aquilo que não existe? Seria de fato ateu, os ateus? Tenho minhas dúvidas já que ele deixa bem claro: "Deus não é de fiar", ou “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro” e ainda “O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que O proclama!”

Evidentemente que ele tinha todo direito de expressar sua opinião, bem como permitiu que o outro a tivesse e que impusesse sua verdade como absoluta. Não foram poucos que sentiram agredidos com o livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", motivo que levou um reporter a perguntar o porque dele falar tanto da Bíblia, respondeu: "Não se ponha na posição da Igreja, de que não se toca na Bíblia”.

Saramago poderia responder simplesmente que gostava de provocar por ter descoberto o 'calcanhar de aquiles' das pessoas. Coisa que ficou claro no lançamento do livro Caim, onde ressuscitaram incompreensões, ódios, ainda acusaram-no de ser herege e de ler a Bíblia com ingenuidade, respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à igreja. Leio e falo sobre o que leio".

Sobre a conversa com um teólogo, declarou: "A mim, o que me vale, meu caro Tolentino, é que já não há fogueiras em São Domingos". O Papa, após o lançamento de Caim voltou a afirmar publicamente que apenas a Igreja Católica pode interpretar a Bíblia. ( http://is.gd/OKND09 )

Suas declarações:
Deus, Igreja e Bíblia - http://is.gd/BTGequ
Bíblia e Deus - http://is.gd/HzCIQF
Parte I do Jornal da Globo - http://is.gd/rMA4zw
Parte II do Jornal da Globo - http://is.gd/nYZDpl

vídeo relacionado: - http://is.gd/CPX1Ht

Bem! Esta é a opinião de José Saramago, eu posso não concordar com ele, porém todo ser racional sabe que esse direito lhe pertenceu. E outra coisa, quando um ateu critica Deus no fundo ele critica “nada”. É difícil entender isso?

Mas se for diferente, como enaltecer e fortalecer a hipocrisia dos fariseus de plantão? Porque eles amam o outro até o exato momento que o outro discorda da sua opinião e criam um tremendo alvoroço em nome de Deus.

Se meu dógma for bem estruturado dentro dos princípios de uma fé professada posso ler e até entender qualquer expressão diferente da minha que nada me abalará . Compreender o Livre arbítrio também é permitir que cada um entenda a religiosidade como melhor lhe convier. Zelar das coisas sagradas depende do modo que conversamos diante de uma discórdia.

É o que penso!

Mi – Cps, 04/04/11

Sabedoria é para todos

Segundo Freud, o “conceito primário” de pensamento é a “lógica da religião e das artes. Expressões que de um modo geral nos tocam diretamente porque é a emoção que nos domina, ela agita nosso psicológico e biológico. Para melhor entendimento e encaminhamento do raciocínio dizemos que as emoções se manifestam sutilmente.

Pertencimentos emocionais: IRA; TRISTEZA, MEDO; PRAZER; AMOR. E as virtudes e defeitos vão desde a fé, coragem, perdão, dúvida, preguiça, até o tédio. Debates científicos as classificam igual a um estado de espírito, temperamento, distúrbios como depressão, angústia, ansiedade, fobias, etc.

Circunstancialmente as emoções nos dominam e prevalecem sobre nós. Não são poucas as vezes que somos racionais em um momento e irracionais quando o calor da emoção comanda nossas atitudes. Normalmente nos extremos das emoções temos atitudes das quais nos arrependemos assim que a razão começa a reagir. Daí que sugem os crimes passionais, chamado de “privação dos sentidos”.

Emoções são sentimentos expressados em intensos impulsos, resultando idéias, comportamentos, ações e reações. Virtude é quando o emocional inteligente, ou seja, a emoção racional se manifesta equilibrada, para que fique só sentimentos sublimes e bem conduzidos. É o discurso da Lei do Amor e é assim que líderes espirituais tocam o coração dos fiéis.

Do ponto de vista ocidentalista não tem muito sentido, esse discurso passou a ser visto como sinônimo de utopia. Porque certas distorções e mutilações sofridas no Evangelho transformaram o cristianismo. Este é um dos motivos de zombaria ou de pavor dos valores espirituais cultivados pela religião hoje. Por isso se faz necessário a todos INTERPRETAR a LEI de DEUS com SABEDORIA, a intelectualidade não falseia o sentido de uma Lei amorosa, piedosa e caridosa.

Só com testemunho irrefutável, o axioma (termo definido tão bem pelo matemático Euclídes que quer dizer noção comum, ou seja, confirmação de todos, aceitamento sem discussão) diminuiremos o ateísmo no mundo. Os ateus admiram Jesus, Mesmo porque conforme relatos Ele foi um homem de atitude impecável. Mas quando observam os comportamentos dos cristãos, acabam considerando desnecessário seguir a um Cristo que arrebanha pessoas de caráter tão duvidoso.

É sempre bom lembrar algumas afirmativas, para que mudemos nossas atitudes:
- “Deus não tinha nada a ver com o mau humor do Cristianismo; que chatos são os cristãos e não o Cristo”. Nietzchie - http://is.gd/QhLdM9
- “Passarei a acreditar no Redentor quando o cristão parecer um pouco mais redimido” Nietzchie - http://is.gd/PqGBfV
 - “Gosto do seu Cristo, mas não gosto dos seus cristãos”. Gandhi: - http://is.gd/WPP0qe

Então não são frases que merecem reflexão? Bom seria reconsiderarmos nossos conceitos! Particularmente penso que nos reunimos nos templos para testemunharmos uma libertação e obedecendo toda sua liturgia. Agora impor uma “ditadura” fora dele exigindo só deveres e obrigações, conforme sempre falo disso aqui, acaba me impedindo de mudar o discurso.

O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.” Immanuel Kant

Mi – Cps – 02/04/11
Apesar de você é uma música que penso poder ter interpretação política ou religiosa...

domingo, 30 de janeiro de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

Ontologia

Do grego ontos e logos = conhecimento do ser.

Parte da filosofia que investiga ou estuda a natureza, realidade, existência dos ente e questões metafísicas em geral do SER.

Trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido com uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.

No uso informal a filosofia considera o que o mundo contém, formalmente é o aspecto da metafísica que caracteriza a Realidade identificando todas as suas categorias essenciais e estabelecendo as relações que mantém entre si.

Ser enquanto ser = é a existência, o existir, onde volume e espaço-tempo não se excluem entre si.

Realidade e efetividade = o que é de fato
Aparência = o que não é, no entanto parece ser.

Comparativo do indivíduo ou da espécie humana - frente aos demais seres vivos, passando pela sua concepção, criação, evolução e extinção.

Conhecimento profundo da natureza humano, considerando aspectos fisiológicos e espirituais, confrontando-os com aqueles que caracterizam e distinguem os demais seres vivos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Refazer o passado?


Agualusa
Do Livro: O vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa


Interessante a história de Félix Ventura um genealogista angolano que inventa passados luxuosos, aos ricos e poderosos de uma sociedade, agora emergente em Angola.

Através de uma narradora um tanto quanto nada convencional deparamo-nos com: crítica política e social; reflexão sobre mitos e realidades; truques da memória; construção do passado e a importância da autonomia de nossa identidade.

" Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O Passado costuma ser estável, está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre. " Agualusa

O livro nos conta, sobre um especialista que reescreve biografia destes novos ricos, que têm dinheiro e poder, mas sem passado consistente!!!! História cheia de metáforas e analogias para o Mundo Natural, povoada de personagens como a osga ou lagartixa, sempre atenta a tudo e ao tempo em que era humana.

"Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, iludem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu".

Principal personagem é Félix Ventura, albino negro morador de Luanda, capital de Angola, sua profissão é elaborar árvores genealógicas, conforme o desejo de seus clientes. Eulálio é a lagartixa que, na verdade comanda toda a narrativa e vai nos contar como Félix se encarrega de arquitetar o passado dos empresários, políticos e generais, que têm presente e futuro prospero, porem falta-lhes um passado decente.

O albino e a lagartixa, vivem à sombra e compartilham vivências, sonhos e criações. Eulálio busca na sua pretérita vida humana, vestígios de outra reencarnação, a fim de compreender suas emoções e reconhecer os vestígios literários e a sua aguçada percepção. Já Felix, busca realizar no presente o alicerce nos alfarrábios ou calhamaços que lhe serviram de berço.

A casa é um lugar possível e seguro, longe dos campos minados do país, onde são revelados os segredos e fantasias que buscam novos passados. Também lá acontece o resgate da vida de Eulálio, que viveu quase um século na pele de homem sem se sentir humano e que agora se lamenta desses quinze anos no corpo de lagartixa.

Felix está muito bem, leva uma vida razoavelmente confortável até a chegada de um estrangeiro, fotógrafo de guerra, que quer um passado totalmente novo e isso inclui uma identidade angolana e o nome de José Buchmann, uma fajuta e fabulosa árvore genealógica, passa a buscar os personagens a fim de confirmar sua fictícia existência.

Enquanto Félix cria o passado de José Buchmann surpreendemos com possibilidades, coincidências e absurdos. A busca de sua suposta mãe, a aquarelista norte-americana Eva Muller, a narrativa do corredor cheio de espelhos e de sua povoada solidão no apartamento em Nova Iorque, a aquarela encontrada e o anúncio de sua morte na Cidade do Cabo, tudo vai formatando essa nova identidade.

Os trabalhos são misturados aos problemas e sonhos da lagartixa que age com lucidez de gente: “A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável. Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre”.

Da vida humana Eulálio lembra da mãe, que o aconselhava sobre realidade e sonho: "Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolha os livros".

Impressiona os inúmeros seres necessitados de trajetórias maquiadas que legitimem passados memorialista. Num dos casos destaca A vida verdadeira de um combatente. Livro de memórias de um Ministro, que credita um conjunto de fatos notáveis para concretizar o personagem idealizado e contextualizado às suas pretensões futuras.

O livro nos apresenta o mendigo Edmundo Barata dos Reis, comunista assumido, ex-agente e ex-gente nas palavras do próprio, cria novos rumos para a narrativa e também o trama amoroso entre Félix e a mulher que fotografa núvens, Ângela Lúcia.

Assim se dá o desfecho que consagra a narrativa poética de Agualusa.

Mi - Cps, 27/01/11
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Rock and Roll

Rock and Roll – A invenção da adolescência entre a indústria e a angústia cultural: Chuck Berry e Elvis Presley

Rock filosofia

Anos 50 Rock and Roll (balançar e rolar), gíria laica negra que expressava sexo incitação, que nos anos 37/47, Ella Fitzgerald ( http://is.gd/Fvm1qh ) já trazia em seus blues. O rock tem uma aparência rebelde, mas a rebeldia vem do som da música como forma de agressão e é o que atraia a juventude. Este fenômeno ou movimento híbrido, muito distinto da música, mas através dela descrevia uma juventude ou mandava mensagens.

Surgiu no século XX derivado do *blues acelerado, ou um **boogie-woogie. Ritmo quaternário de forma musical muito pobre. Mas na verdade o movimento RR nasceu como uma expressão artística que procurava para seu mercado, a apática juventude do pós-guerra que clamava por renovação e foi criado pela indústria da cultura tecnológica, como manifestação de crítica a qualquer forma de conservadorismo.Por que os jovens escolheram como sua música?

Chuck Berry, cantor negro, pobre que sai dos púlpitos evangélicos, marca esta juventude com sua música autobiográfica Johnny B Goode que vira o hino deste movimento:  http://is.gd/IPZ245

Mas Chuck Berry, não era interessante para o sistema e nem sua personalidade permitia que afastasse de seu instinto. Não se corrompeu com o capitalismo. Chegava aos shows atrasados, não levava banda nem guitarra, foi preso acusado de pedofilia ( http://is.gd/gjn8z ).

Leva a vida a sua maneira até hoje, bem estilo rock and roll. Queria dinheiro, mas queria ser feliz.

Pela postura, atitude e fidelidade dizem que foi ele quem inventou o rock and roll, mesmo não assumindo tal autoria.



Elvis Presley chega na mesma época, cantor branco pobre, saído dos púlpitos evangélicos, ambos comprometidos com o movimento, mas com estilos próprios.

Tudo que o mercado queria. Logo reestruturaram seu marketing, até sua ida ao exército foi uma estratégia, tudo fabricado com muito dinheiro, claro, em nome desta expressão. Elvis foi legítima vítima de um mercado capitalista.

Absorvido pela indústria, não pode seguir seus estilos naturais de cantar e dançar. Tornou-se muito infeliz, em troca assinou contratos trilhardários e facilmente foi para a linha do bom mocismo desvirtuando a linha do rock and roll. Abdicou visivelmente sua liberdade de expressão: antes - http://is.gd/tSEjEA e depois http://is.gd/biMAzO


Invenção da juventude e da indústria cultural


No livro Dialética do esclarecimento de 1947, de Theodor Adorno (http://is.gd/gjcKA ) e de Max Horkheimer (http://is.gd/gjevp ) há um texto com críticas, que não esgotou seu sentido se pensarmos em nossa cultura e podemos interpretar como a construção de determinados produtos que se transformam em mercadorias com semelhanças a qualquer outro produto que podemos chamar de arte que atinge as sensibilidades das pessoas.

Neste texto os autores compreendiam que a própria cultura estava sendo produzida industrialmente em forma de comportamento humanos, estética, modo de ser, modo de pensar e de agir. A totalidade da vida que se transforma em indústria e a indústria é tudo.

Expressão artística produzida em escala industrial e o nosso comportamento também, pelo menos é o papel da publicidade contemporânea e o que ela faz para sobreviver. Nossa cultura passa realmente por um processo de industrialização.

Não somos mais senhores de nossos desejos e pensamentos e sim conforme os pensamentos dados. A propaganda é que determina os nossos desejos, ouvimos aquilo que o marketing bombardeia nossa percepção dizendo o que necessitamos.

Pensar por conta própria, nem pensar! Compramos aquilo que nos oferecem a ideia é pronta e tem que ser repetida em exaustão para que se torne uma verdade. Tão-pouco nos deixam em paz, quando menos esperamos, a TV, outdoor, horrivelmente nos colocam seus produtos.

Mi - Cps 26/10/10

Fonte: –
http://is.gd/gjgUA

*Blues é uma forma musical vocal ou instrumental que se fundamenta no uso de notas tocadas ou cantadas numa frequência baixa, com fins expressivos, evitando notas da escala maior, utilizando sempre uma estrutura repetitiva. Nos Estados Unidos surgiu a partir dos cantos de fé religiosa, chamadas spirituals e de outras formas similares, como os cânticos, gritos e canções de trabalho, cantados pelas comunidades dos escravos libertos, com forte raiz estilística na África Ocidental. Suas letras, muitas vezes, incluíam sutis sugestões ou protestos contra a escravidão ou formas de escapar dela.
**Boogie-woogie é um estilo de blues, caracterizado pelo uso sincopado da mão esquerda ao piano. Foi muito popular entre os negros nos anos 30 e anos 40 nos Estados Unidos, sendo geralmente tocado pelos mesmos. As bandas em geral tinham três pianos, violões e tocavam musica country e gospel em um estilo de guitarra próprio. Os grandes nomes do estilo são Memphis Slim, Pete Johnson, Albert Ammons, Little Richard e Meade Lux Lewis que compuseram conhecidas músicas do gênero, como 6th Avenue Express, Boogie Woogie Stomp, entre outras.

Sobre Max Horkheimer

Max Horkheimer (Estugarda, 14/02/1895 — Nuremberga, 07/07/1973) filósofo e sociólogo alemão. Como grande parte dos intelectuais da Escola de Frankfurt, era judeu de origem. Por intermédio de seu amigo Friedrich Pollock, Horkheimer associou-se em 1923 à criação do Instituto para a Pesquisa Social, do qual foi diretor, em 1931 sucedendo o historiador austríaco Carl Grünberg.

Teve como importante fonte de inspiração o filósofo alemão Schopenhauer de quem tinha um retrato no escritório. Aproximou-se "obliquamente" do marxismo no final dos anos 1930, mas segundo testemunhos da época raramente citava os nomes de Marx e Lukács em discussões. Apenas com a emergência do nazismo, Horkheimer se aproxima de fato de uma perspectiva crítica e revolucionária que o fará escrever, já diretor do Instituto para Pesquisas Sociais, o ensaio-manifesto, Teoria Tradicional e Teoria Crítica (1937).

Suas formulações, sobretudo aquelas acerca da Razão Instrumental, junto com as teorias de Theodor Adorno e Herbert Marcuse compõem o núcleo fundamental daquilo que se conhece como Escola de Frankfurt.

Suas idéias

A teoria crítica ultrapassa, assim, o subjetivismo e o realismo da concepção positivista, expressão mais acabada da teoria tradicional. O subjetivismo, segundo Horkheimer, apresenta-se nitidamente quando os positivistas conferem preponderância explícita ao método, desprezando os dados em favor de uma estrutura anterior que os enquadraria. Por outro lado, mesmo quando os positivistas atribuem maior peso aos dados, esses acabam sendo selecionados pela metodologia utilizada. E esta atribui maior relevo a determinados aspectos dos dados, em detrimento de outros.

A teoria crítica, ao contrário, pretende ultrapassar tal subjetivismo, visando a descobrir o conteúdo cognoscitivo da práxis histórica. Os fatos sensíveis, por exemplo, vistos pelos positivistas como possuidores de um valor irredutível, são, para Horkheimer, "pré-formados socialmente de dois modos: pelo caráter histórico de objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão que percebe".

Em suma, a teoria crítica de Horkheimer pretende que os homens protestem contra a aceitação resignada da ordem total totalitária. A "razão polêmica" de Horkheimer, ao se opor à razão instrumental e subjetiva dos positivistas, não evidencia somente uma divergência de ordem teórica. Ao tentar superar a razão formal positivista, Horkheimer não visa suprimir a discórdia entre razão subjetiva e objetiva através de um processo puramente teórico.

Essa dissociação somente desaparecerá quando as relações entre os seres humanos, e destes com a natureza, vierem á configurar-se de maneira diversa da que se instaura na dominação. A união das duas razões exige o trabalho da totalidade social, ou seja, a práxis histórica.

Crítica a indústria da cultura



Fonte: http://is.gd/gjb9V

Sobre Theodor Adorno

Theodor Ludwig Wiesengrund Adorno (Frankfurt am Main,11/09/1903 — Visp, 06/08/1969), estudou na Universidade de Frankfurt (atual Universidade Johann Wolfgang Goethe), Filosofia, Musicologia, Psicologia e Sociologia. Completou rapidamente seus estudos, defendendo em 1924 a tese sobre Edmund Husserl (A transcendência do objeto e do noemático na fenomenologia de Husserl), orientado pelo professor Hans Cornelius.

Segundo Adorno, essa tese teria sido demasiadamente influenciada por seu orientador. No final de sua graduação, conhece já dois de seus principais parceiros intelectuais - Max Horkheimer Walter Benjamin Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros.

Elementos fundamentais de seu pensamento

Sua Filosofia é considerada uma das mais complexas do século XX, fundamenta-se na perspectiva da dialética. Uma de suas importantes obras, a Dialética do Esclarecimento, escrita em colaboração com Max Horkheimer durante a guerra, é uma crítica da razão instrumental, conceito fundamental deste último filósofo, ou, o que seria o mesmo, uma crítica, fundada em uma interpretação negativa do Iluminismo, de uma civilização técnica e da lógica cultural do sistema capitalista (que Adorno chama de "indústria cultural"). Também uma crítica à sociedade de mercado que não persegue outro fim que não o do progresso técnico.

A atual civilização técnica, surgida do espírito do Iluminismo e do seu conceito de razão, não representa mais que um domínio racional sobre a natureza, que implica paralelamente um domínio (irracional) sobre o homem; os diferentes fenômenos de barbárie moderna (fascismo e nazismo) não seriam outra coisa que não mostras, e talvez as piores manifestações, desta atitude autoritária de domínio sobre o outro, e neste particular, Adorno recorrerá a outro filósofo alemão - Nietzsche.

Na Dialética Negativa, Theodor Adorno intenta mostrar o caminho de uma reforma da razão mesma, com o fim de libertá-la deste lastro de domínio autoritário sobre as coisas e os homens, lastro que ela carrega desde a razão iluminista.

Opõe-se à filosofia dialética inspirada em Hegel, que reduz ao princípio da identidade ou a sistema todas as coisas através do pensamento, superando suas contradições (crítica também do Positivismo Lógico, que deseja assenhorar-se da natureza por intermédio do conhecimento científico), o método dialético da "não-identidade", de respeitar a negação, as contradições, o diferente, o dissonante, o que chama também de inexpressável: o respeito ao objeto, enfim, e o rechaço ao pensamento sistemático.

A razão só deixa de ser dominadora se aceita a dualidade de sujeito e objeto, interrogando e interrogando-se sempre o sujeito diante do objeto, sem saber sequer se pode chegar a compreendê-lo por inteiro.

O conceito de técnica não deve ser pensado de maneira absoluta: ele possui uma origem histórica e pode desaparecer. Ao visarem à produção em série e à homogeneização, as técnicas de reprodução sacrificam a distinção entre o caráter da própria obra de arte e do sistema social. Por conseguinte, se a técnica passa a exercer imenso poder sobre a sociedade, tal ocorre, segundo Adorno, graças, em grande parte, ao fato de que as circunstâncias que favorecem tal poder são arquitetadas pelo poder dos economicamente mais fortes sobre a própria sociedade.

Em decorrência, a racionalidade da técnica identifica-se com a racionalidade do próprio domínio. Essas considerações evidenciariam que, não só o cinema, como também o rádio, não devem ser tomados como arte. “O fato de não serem mais que negócios – escreve Adorno – basta-lhes como ideologia”.Enquanto negócios, seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática e programada exploração de bens considerados culturais. Tal exploração Adorno chama de “indústria cultural”.

O termo foi empregado pela primeira vez em 1947, quando da publicação da Dialética do Iluminismo, de Horkheimer e Adorno. Este último, numa série de conferências radiofônicas, pronunciadas em 1962, explicou que a expressão “indústria cultural” visa a substituir “cultura de massa”, pois esta induz ao engodo que satisfaz os interesses dos detentores dos veículos de comunicação de massa.

Os defensores da expressão “cultura de massa” querem dar a entender que se trata de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das próprias massas. Para Adorno, que diverge frontalmente dessa interpretação, a indústria cultural, ao aspirar à integração vertical de seus consumidores, não apenas adapta seus produtos ao consumo das massas, mas, em larga medida, determina o próprio consumo. Interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, a indústria cultural reduz a humanidade, em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses.

A indústria cultural traz em seu bojo todos os elementos característicos do mundo industrial moderno e nele exerce um papel específico, qual seja, o de portadora da ideologia dominante, a qual outorga sentido a todo o sistema. AI fada à ideologia capital capitalista, e sua cúmplice ice, a indústria cultural contribui eficazmente para falsificar as relações entre os homens, bem como dos homens com a natureza, de tal forma que o resultado final constitui uma espécie de antiiluminismo.

Considerando-se diz Adorno que o iluminismo tem como finalidade libertar os homens do medo, tornando-os senhores e liberando o mundo da magia e do mito, e admitindo-se que essa finalidade pode ser atingida por meio da ciência e da tecnologia, tudo levaria a crer que o iluminismo instauraria o poder do homem sobre a ciência e sobre a técnica. Mas ao invés disso, liberto do medo mágico, o homem tornou-se vítima de novo engodo: o progresso da dominação técnica. Esse progresso transformou-se em poderoso instrumento utilizado pela indústria cultural para conter o desenvolvimento da consciência das massas.

A indústria cultural nas palavras do próprio Adorno “impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. O próprio ócio do homem é utilizado pela indústria cultural com o fito de mecanizá-lo, de tal modo que, sob o capital capitalismo, em suas formas mais avançadas, a diversão e o lazer tornam-se um prolongamento do trabalho.

Para Adorno, a diversão é buscada pelos que desejam esquivar-se ao processo de trabalho mecanizado para colocar-se, novamente, em condições de se submeterem a ele. A mecanização conquistou tamanho poder sobre o homem, durante o tempo livre, e sobre sua felicidade, determinando tão completamente a fabricação dos produtos para a distração, que o homem não tem acesso senão a cópias e reproduções do próprio trabalho. O suposto conteúdo não é mais que uma pálida fachada: o que realmente lhe é dado é a sucessão automática de operações reguladas. Em suma, diz Adorno, “só se pode escapar ao processo de trabalho na fábrica e na oficina, adequando-se a ele no ócio”.

Tolhendo a consciência das massas e instaurando o poder da mecanização sobre o homem, a indústria cultural cria condições cada vez mais favoráveis para a implantação do seu comércio fraudulento, no qual os consumidores são continuamente enganados em relação ao que lhes é prometido mas não cumprido.

Exemplo disso encontra-se nas situações eróticas apresentadas pelo cinema. Nelas, o desejo suscitado ou sugerido pelas imagens, ao invés de encontrar uma satisfação correspondente à promessa nelas envolvida, acaba sendo satisfeito com o simples elogio da rotina. Não conseguindo, como pretendia, escapar a esta última, o desejo divorcia-se de sua realização que, sufocada e transformada em negação, converte o próprio desejo em privação: A indústria cultural não sublima o instinto sexual, como nas verdadeiras obras de arte, mas o reprime e sufoca.

Ao expor sempre como novo objeto de desejo (o seio sob o suéter ou o dorso nu do herói desportivo), a indústria cultural não faz mais que excitar o prazer preliminar não sublimado que, pelo hábito da privação, converte-se em conduta masoquista. Assim, prometer e não cumprir, ou seja, oferecer e privar, são um único e mesmo ato da indústria cultural.

A situação erótica, conclui Adorno, une “à alusão e à excitação, a advertência precisa de que não se deve, jamais, chegar a esse ponto”. Tal advertência evidencia como a indústria cultural administra o mundo social.

Criando “necessidades” ao consumidor (que deve contentar-se com o que lhe é oferecido), a indústria cultural organiza-se para que ele compreenda sua condição de mero consumidor, ou seja, ele é apenas e tão-somente um objeto daquela indústria. Desse modo, instaura-se a dominação natural e ideológica.

Tal dominação, como diz Max Jiménez i Jiménez, comentador de Adorno, tem sua mola motora no desejo de posse constantemente renovado pelo progresso técnico e científico, e sabiamente controlado pela indústria cultural. Nesse sentido, o universo social, além de configurar-se como um universo de “coisas”, constituiria um espaço hermeticamente fechado.

Nele, todas as tentativas de liberação estão condenadas ao fracasso. Contudo, Adorno não desemboca numa visão inteiramente pessimista, e procura mostrar que é possível encontrar-se uma via de salvação. Esse tema aparece desenvolvido em sua última obra, intitulada Teoria Estética.

No livro Teoria Estética, Adorno oscila entre negar a possibilidade de produzir arte depois de Auschwitz e buscar nela refúgio ante um mundo que o chocava, mas que ele não podia deixar de olhar e denominar. Essa postura foi extremamente criticada pelos movimentos de contestação radical, que o acusavam de buscar refúgio na pura teoria ou na criação artística, esquivando-se assim da práxis política.

A seus detratores, Adorno responde que, embora plausível para muitos, o argumento de que contra a totalidade bárbara não surtem efeito senão os meios bárbaros, na verdade não releva que, apesar disso, atinge-se um valor limite.

A violência que há cinqüenta anos podia parecer legítima àqueles que nutrissem a esperança abstrata e a ilusão de uma transformação total está, após a experiência do nazismo e do horror stalinista, inextricavelmente imbricada naquilo que deveria ser modificado: “ou a humanidade renuncia à violência da lei de talião, ou a pretendida práxis política radical renova o terror do passado”.

Criticando a práxis brutal da sobrevivência, a obra de arte, para Adorno, apresenta-se, socialmente, como antítese da sociedade, cujas antinomias e antagonismos nela reaparecem como problemas internos de sua forma. Por outro lado, entre autor, obra e público, a obra adquire prioridade epistemológica, afirmando-se como ente autônomo. Esse duplo caráter vincula-se à própria natureza desdobrada da arte, que se constitui como aparência.

Ela é aparência por sua diferença em relação à realidade, pelo caráter aparente da realidade que pretende retratar, pelo caráter aparente do espírito do qual ela é uma manifestação; a arte é até mesmo aparência de si própria na medida em que pretende ser o que não pode ser: algo perfeito num mundo imperfeito, por se apresentar como um ente definitivo, quando na verdade é algo feito e tornado como é.



Memorial Theodor Adorno
Fonte: http://is.gd/gjb72

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

José Ortega y Gasset

E as ciências humanas
Para o filósofo (1883-1955) um dos intelectuais mais queridos da Espanha, desde quando nascemos até a nossa morte, tudo está em permanente mudança. Logo, toda a vida é um aprendizado. Portanto, o propósito pedagógico, no sentido mais amplo, faz parte da espinha dorsal de seu pensamento. "O homem tem uma missão de clareza sobre a Terra", dizia.

Concepção dinâmica da vida humana e a ambição de revolucionar a tradição filosófica, baseada numa avaliação cética das possibilidades do homem comum. A supremacia da razão e àquelas que buscam a verdade absoluta fora do mundo sensível, ou razão vital.

A racionalidade como função da vida é, algo que não pode ser separado das condições física, psicológica e social do indivíduo. A verdade também só é alcançável do ponto de vista de cada um. Para que o funcionamento da existência se estabeleça, é preciso que o indivíduo interaja com a sociedade

Esse é o sentido da mais famosa máxima de Ortega y Gasset: "O homem é o homem e a sua circunstância". Ele não considera o ser humano como sujeito ativo sem levar em conta simultaneamente tudo o que o circunda, a começar pelo próprio corpo e chegando até o contexto histórico em que se insere. A Educação vira um instrumento para que cada um possa conscientizar-se de sua circunstância, relacionar-se com ela e superá-la. "Se não a salvo, não me salvo eu", conclui o filósofo espanhol.
O conceito de razão vital é o fortalecimento do psiquismo infantil seria o objetivo prioritário, devendo ocupar pelo menos as primeiras séries, para buscar no conhecimento biológico suas motivações e perspectivas antes de inseri-lo na vida organizada dos adultos.

O ensino deveria introduzir conteúdos e tarefas com ênfase no estudo dos mitos da humanidade na circunstância de cada criança. Dizia que a escola tradicional educa apenas "para o ontem" e não com vistas ao futuro, do mesmo modo que oferece um preparo individual, mas não para a vida em sociedade.

Isso porque não leva em conta que cada aluno se articula, por uma rede de relações, a comunidades cada vez mais amplas. Do ponto de vista da educação política, deveria haver um esforço pedagógico para evitar a "rebelião das massas" (título de um de seus livros).

Para que o homem-massa não abandone sua desejável docilidade e caia no erro de assumir a função de exemplo, é necessário reforçar os fins morais da Educação e estimular, na minoria, a missão de esclarecer os demais.

Todo ser humano e toda formação social equilibrada, segundo o pensador, são como mecanismos em busca da perfeição. E a escola deveria ser um dos veículos desse processo. "A Educação, nas primeiras etapas, em vez de adaptar o ser humano ao meio, adapta o meio ao ser humano"

O que mantém o ser humano sempre voltado para o futuro é a possibilidade de criar sua história e não a de ter uma natureza determinada, mas só a minoria faz uso dessa prerrogativa. Um outro fator é a massa, constituída de pessoas limitadas e com noções obscuras sobre a própria circunstância.
"A cultura adquirida só tem valor como instrumento e arma para novas conquistas"

Mi - Cps, 29/09/10

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/pesquisador-conhecimento-423330.shtml

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre quatro paredes

O existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) era baseado na morte, algo inevitável que nos impede de concretizarmos nossos planos.

No drama Entre quatro paredes (1944), ele externaliza o desejo e o medo dos personagens. É ai que resgatam suas maldades e angústias que os atormentam. Eles se conhecem pós morte, estão no inferno (não o cristão).

Garcin,letrado, queria ser herói, mas, se acovardou e se apavora com a idéia de suas novas companheiras descubram e isso é impossível;

Inês, funcionária dos correios, homossexual é agressiva, admite suas culpas. Não se desculpa e reconhece o inferno. O ódio a alimenta; sádica, satisfaz com o sofrimento alheio.

Estelle quer conforto e consegue através de um bom casamento, para isso mata o filho que teve com o amante. Este entristece, se mata. Ela tenta redimir-se culpando ao destino. Deseja a paixão para fugir da realidade e usa seu corpo na maioria das vezes.

Cada um responde por um crime. Ficaram confinados eternamente numa sala fechada, sem espelhos, não há necessidade alimento, de dormir, por toda eternidade. Só se vêm através dos olhos do outro; olhos esses que nunca escolheriam para se conviver.

Vaidosa e egoísta, é patético o desespero de Estelle por um espelho. Inês arregala os olhos para que ela possa se enxergar: ela se vê, tão pequenina... Tudo isso os incomoda bastante, pois não conseguem enganar uns aos outros por muito tempo e, aos poucos vão se constrangendo cada vez mais. São colocados cada um, como carrasco do outro, buscando desnudá-los por trás dos olhos.

E acontece a prova de que o ser humano necessita da comunicação, mesmo sabendo que esta será seu inferno.

Inês quer Estelle, Ester quer Garcin, que a ignora por saber quem ela é. Inês joga Estelle contra ele, explicitando as faltas deploráveis de ambos; faltas essas que nenhum quer admitir. Numa convivência insuportável, Estelle, revoltada, tenta matar Inês, mas ela dá boas gargalhadas: já está morta. Garcin tenta, inutilmente, convencê-la de que não é um covarde. Não conseguindo, tenta se vingar amando Estelle diante de Inês.

A consciência de cada um se esbarra no muro da consciência do outro e passam a depender da aceitação dos companheiros, sentimento que mistura ternura e ódio. Está revelado o verdadeiro inferno: a consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia, por isso: “o inferno são os outros”.

Entre quatro paredes é um questionamento da condição humana. É quando o outro deixa de ser importante e passa a ser negligente e repugnante. Mostra a linha tênue que existe entre o ato bom e o ato mau dos seres humanos. “Os Outros”, revelam de nós a nós mesmos.

Algumas vezes, mesmo sufocados pela indesejada presença do outro, tememos magoar, romper, ferir e, a contra-gosto, os suportamos. Uma vez que a incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a convivência realmente um inferno, o angustiante existencialismo ateu sartriano não nos deixa saída. Sem o mínimo de boa-vontade, não há paraíso possível.

Mi, 08/09/10
Fonte: http://is.gd/f1yfI

domingo, 5 de setembro de 2010

O Banquete

Diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C..

A série de discursos sobre a natureza e as qualidades do Amor (Éros).

Conforme alguns filósofos, talvez seja a resposta de Platão às acusações da Cidade contra a filosofia.


Simpósio, Disputa, Banquete ou Orgia?

Anfitrião: Agaton o poeta trágico ateniense

Convidados: Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agaton; Aristodemo, amigo e discípulo de Sócrates; o médico Erixímaco; Aristófanes, o comediógrafo; Sócrates, o convidado mais importanteo e o político Alcibíades.


No dia anterior à festa foi um exagero o excesso de bebida, os convidados ainda estavam resquiciosos. Então, Pausânias sugeriu no lugar da bebida, um diálogo. Todos concordaram. Eriximaco quis elogios à Eros e louvores ao amor.

Sócrates chegou na hora e pediu que, antes de falarem sobre o bem que o amor e seus frutos causam, definissem o que é o amor (iniciou na filosofia por sua mestra Diotima, que lhe ensinou a genealogia do amor).

Fedro começa citando Hesíodo: Falou que o Amor pertence aos deuses mais antigos; é o maior bem, sem ele não há com produzir grandes e belas obras. Dirige a vida dos nobres; é responsável por algo que nem riquezas, honras estirpes podem inspirar tão bem: “A vergonha do que é feio e apreço ao que é belo”.

Fedro se refere ao aidós (do grego - pudor, vergonha, respeito), faz quem ama temer ser surpreendido numa atitude aviltante, humilhante, sentindo-se constrangido diante do amado: “todo homem que ama, se fosse descoberto a fazer um ato vergonhoso, ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem pelos amigos nem por ninguém mais, como se fosse visto pelo bem amado”.

Para Fedro, o Amor dá ao homem virtudes e felicidade, nesta vida e depois dela, torna-os corajosos, heróis e inspira à moral. Sorte dos que amam e são correspondidos. Amar é ainda mais divino que ser amado.

Depois Pausânias disse sobre a existência de outros Eros. Divididos entre bem e mal, real e divino.

Ao limitar-se a unidade do Amor, subdivide-o e (não os exclui) hierarquiza-os imediatamente: Afrodite não é só uma, há: Urânia (celestial) e a Pandêmia (vulgar - pan = todos e demos = povos). Afrodite Pandêmia ama mais o corpo que a alma, inexoravelmente é vencida pelo tempo (Chronos): “Com efeito, ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava 'alça ele o seu vôo' (de Homero), sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante”.

[Na Grécia, existiam duas representações de Afrodite. A Afrodite Pandêmia e a Afrodite Urânia, cada uma delas com características próprias. A Afrodite Pandêmia é a mais antiga, divindade importada do Oriente, altamente sensual. A Afrodite Urânia é mais etérea, regendo os relacionamentos afetivos, incluindo os platônicos].

Pausânias revela duas formas de Amor: - Afrodite Urânia = associada ao eterno, imortal; - Afrodite Pandêmia = transitório, mortal. Os dois amores são necessários, dando ênfase à Pandêmia desvirtue a pólis. E mesmo que esteja passível de cometer um engano, um erro de pessoa, quem ama verdadeiramente é digno de nobreza.

Para ele, existe o Eros vulgar e repudiável e outro sendo uma força educadora. O amor é sinônimo de liberdade para o homem. O amante faz coisas para o amado que um outro não faz, tal como se jogar no chão ou se deitar na porta da moradia do amado.

O amor é louvável, por indicar liberdade ao indivíduo, que age com uma certa graça, sem que ninguém censure o ato louvabilíssimo. Quem ama obtém perdão dos deuses, em caso de falso juramento. O amante está livre de parecer ridículo em suas atitudes.  Se em agredir os deuses é logo perdoado pela sua condição de amante. O amor aproxima o sujeito das virtudes.

Após, Erixímaco segue. Segundo ele, o amor influencia a alma e harmoniza o corpo. Ele concorda com Pausânias na duplicidade do Amor e universaliza, o amplia a todo cosmo:  “grande e admirável, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas humanas como entre as divinas”.

Como é um médico, faz uma analogia com sua arte, dizendo que a medicina suscita Amor e concórdia, promove harmonia, combinando opostos (o sadio e o mórbido) que se estende por todo universo: “deve-se conservar um e outro amor (...). De fato, até a constituição das estações do ano está repleta desses dois amores, e quando se tomam de um moderado amor um pelo outro os contrários, o quente e o frio, o seco e o úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura razoável, chegam trazendo bonança e saúde aos homens, aos outros animais e às plantas, e nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor casado com a violência que se torna mais forte nas estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofensas. Tanto as pestes, com efeito, costumam resultar de tais causas, como também muitas e várias doenças nos animais como nas plantas; geadas, granizos e inflamações resultam, com efeito, do excesso e da intemperança mútua de tais manifestações do Amor (...)”.

[Amor em desequilíbrio, o Amor pathós (afecção da Alma), Amor doentio (patologia hoje)].

Erixímaco transpassa o homem e atinge a natureza. Visão de médico naturalista, Eros aparece como um deus poderoso, que tudo anima e penetra, no ritmo periódico de pleno e de vazio. Ele vê na existência de Eros o bom e o ruim. O médico grego falou que deve-se consentir o prazer, mas não se corromper por ele. Deve harmonizar entre as forças físicas antagônicas e combinar tons altos e baixos formando sinfonia.

Aristófanes foi o próximo. Discursa diferente. Acusa a insensibilidade e impiedade dos homens para com o poder miraculoso de Eros, deus amigo e para conhecer tal poder, precisariam antes conhecer a história da natureza humana.

O poeta narrou o mito da unidade primitiva humana e posterior mutilação. Segundo ele, no início havia 3 gêneros de seres humanos, eram duplos de si mesmos. Gênero masculino masculino; feminino feminino e o masculino feminino chamado andrógino.

É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto uma téssera complementar de um homem, porque cortado com os linguados, de um só em dois; e procura cada um o seu próprio complemento”.

Assim, homens ou mulheres que foram separados do andrógino, procuram sua outra parte. Isto explica o amor heterossexual. E as que foram cortadas da mulher, ou o cortado do masculino unirão ao seu igual.

[Aqui Platão apresenta uma explicação para o amor homossexual feminino e masculino. Quando as metades se encontram, sentem as mais extraordinárias sensações, intimidade e amor, a ponto de não quererem mais se separar, sentem vontade de se "fundirem" novamente. Todos desejam encontrar a cara metade. Conforme Platão, o amor para Aristófanes é o desejo e a procura da parte separada por causa de injustiça contra os deuses].
Aristófanes é poeta e romantiza a definição de amor e amizade. Deixa evidente que não se trata de conexão corporal e sim essência e complementaridade. Termina seu discurso de forma belíssima, profetizando que o homem só terá uma vida feliz se tomado por Eros, responsável por realizar plenamente a finalidade do amor e de fazer com que cada ser encontre o seu verdadeiro amado, retornando à sua primeira natureza.

Agaton, o poeta anfitrião foi o ante-penúltimo a elogiar amor. Não só enalteceu os benefícios que Eros faz ao homem. Também cantou o próprio deus em essência e o descreveu como o grande poeta que ensinou os outros a sê-lo.

E desde que Eros pisou no Olimpo, o trono dos deuses passou de terrífico a belo. Foi ele quem ensinou à maioria dos imortais as suas artes.

Após todas essas virtudes atribuídas a Eros, o poeta se limitou a explicar o Amor e suas características.

Finalmente Sócrates discursa. O grande momento do banquete e talvez o mais esperado.  Inicia elogiando Agaton ter principiado por mostrar qual é a natureza e quais são as obras do Amor.

Para ele, ao contrário de Agatão, Eros não é o próprio belo, mas aspira-o, tem o desejo de possuir algo. Lembra que quem ama deseja possuir aquilo que ama.

A seguir, pergunta: “é de tal natureza o Amor que é Amor de algo ou de nada?” Agaton responde que o Amor é Amor de algo. (De qual “algo” será o Amor?).

Indaga Sócrates: “Será que o Amor, aquilo de que é amor, ele o deseja ou não?” e aprofunda ainda mais na questão: “E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem?” (quem deseja o Amor, deseja aquilo que tem carencia).

Disse Sócrates que, sendo o Amor, amor de algo, esse algo é desejado. Este objeto do amor só pode ser desejado quando falta, ninguém deseja o que não precisa.“O que deseja, deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente”.

[Na fala de Sócrates, Platão coloca seu apontamento crucial sobre o conceito de amor. Só se ama aquilo que não se tem e se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O objeto do amor é ausente, mas solicitado. É como a verdade que está sempre além: ao pensarmos em tê-la atingido, ela nos escapa entre os dedos].

Essa inquietação da procura, pela paixão ou pelo saber, faz do amor um filósofo. Sendo o Amor, amor daquilo que falta, não é belo nem bom, visto que o Amor é amor do belo e do bom. Não desejamos o que temos.

Aí, Platão ainda fala sobre a origem de Eros (mito narrado por Diotima a Sócrates). Eros teria a natureza da falta justamente por ser filho de Recurso e Pobreza. Conforme Platão em O Banquete, Eros deve ser pensado em termos relacionais, não em termos absolutos. Não se deve compreender o amor como absoluto, mas como relativo, pois é amor de alguma coisa. O amor estabelece relação entre quem ama e aquele que é amado, assim como: medeia sabedoria e ignorância.

Platão tira de Eros (Amor) a condição de deus, e transforma-o em, um intermediário entre os deuses e os mortais (o amor como ligação). Segundo texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem (junto com o inteligência e a sabedoria); não é nem bom nem mal.

No diálogo, existe também uma explicação e a naturalização do amor bissexual e do amor homossexual. Para Platão, quando se ama tem que saber ser correspondido.
"Convidado pelo rei Dionísio, a passa um bom tempo em Siracusa, para ensinar filosofia. Época talvez que se tenha dado a reunião na casa do burguês Agaton. Por isso será que Platão não está entre os convidadaos?." 
Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Os humanos eram unidos pelo umbigo e Zeus, temendo a presunção de tanta auto-suficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser: homem procurando homem, mulher procurando mulher ou homem procurando mulher ou v/v.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. Não se trata de sexo, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Declama o ferreiro artesão, divino Hefestos, indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...) Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes pensa que talvez todos queiram fundir-se ao amado. E conclui que o desejo e procura da outra parte se dá o nome de Amor.

Agaton, retoma a idéia dos benefícios do Amor iniciado por Fedro. A essência, a natureza do amor traz esses benefício, todas as perfeições imagináveis são atribuídas ao Amor, dos deuses é o mais feliz porque é o mais belo; e mais belo por ser mais jovem (por isso foge da velhice)! Além de ser o melhor (por ser o mais justo), temperante, corajoso e sábio.

E sobre por onde anda o amor, Agaton diz que “(...) Nos costumes, nas almas de deuses e de homens ele fez sua morada, e ainda, não indistintamente em todas as almas, mas na que encontre com um costume rude ele se afasta, e na que o tenha delicado ele habita”. (Enfim, para Agaton o amor se apresenta como: tudo de bom!).

Sócrates “provoca” Agaton, sobre quão Belo é o Amor:Não está então admitindo que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?” (...) “Carece então de beleza o Amor, e não a tem?” (...) “E então? O que carece de beleza e de modo algum a possui, porventura dizes tu que é belo?”.

Agaton confessa não saber nada sobre o que diz Sócrates.

Sócrates faz uma reflexão do belo ao bom, conclui que o amor é carente de ambos. Traz para o discurso relatos de sua mestra, entendida nesse e em outros assuntos. Ao ser indagado por Diotima percebeu: o que não é belo, não é necessariamente feio; um indivíduo, não sábio, não precisa ser ignorante.

[O discurso de Sócrates aparece não como uma sabedoria dele, mas como uma verdade que ele desvendou na conversa com sua mestra Diotima, uma sacerdotiza da cidade de Mantinea].

Ela teria dito a Sócrates: “Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim também o Amor, porque tu mesmo admites que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos”.

Diotima provou para Sócrates que: o Amor não é deus, todos os deuses perfeitos já possuem o que é belo e bom, logo são felizes. A sacerdotisa diria então que o Amor é um “gênio intermediário” (os gregos denominavam “daimon”, cuja tradição medieval simbolizou por “angelus”, anjos), algo que está entre “um deus e um mortal”.

E detém o poder, diz ela:de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os sacrifícios, e de outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (...) Um deus com um homem não se mistura, mas é através desse ser [Amor, que é um daimon] que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo”.

[Sócrates perguntara a Diotima sobre a origem do Amor, ela relatara que: no nascimento de Afrodite, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os convidados, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza, filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe não sábia e pobre, nasce sob o signo da beleza:  “Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”].

A mestra reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a ignorância. A ação (do Amor) é o que garante aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível.

Diotima ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma (belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.

O Banquete encerra com a chegada de Alcibíades. Que ao por fim as honrarias a Eros e inicia elogios a Sócrates, Alcibíades encarna Eros e declara seu grande amor por Sócrates.

Como pode um jovem de beleza exuberante declarar seu amor (philia) a um velho como Sócrates? É a valoração da filosofia e um novo valor: a beleza interior superior à beleza exterior perecível.

O segredo de Sócrates é o conhecimento do amor e só Alcibíades captou. Esse efeito de significação do amor decorre de que para amar é necessário que o sujeito reconheça o que falta em si, renuncie à posição de o objeto e passe a ser sujeito.

Alcebíades embriagado vê o Agalma (objeto precioso e inelutável) que está no interior de Sócrates. Sócrates porta um objeto desejado por Alcibíades. Contudo, Sócrates recusa o amor de Alcebíades na posição de objeto amado, quando diz não ter o que deseja Alcebíades e quem a tem é Agaton.

Onde Alcebíades diz ver o Agalma há um vazio; Sócrates é vazio, por isso ele não abre mão da posição de amante. Se Sócrates aceitasse a posição de amado estaria consumada a metáfora do amor, visto que em Alcebíades houve mudança de posição, de amado a amante.

Sócrates instaura a ignorância, o não-saber como vazio no centro do saber, aí onde Alcebíades ama o suposto saber de Sócrates. Sobre o Agalma, Sócrates responde com o seu vazio, com um "eu não tenho o objeto que você supõe". Sócrates indica a Alcebíades que a suposição deste é imaginária.

Aí onde Alcebíades pede um sinal do desejo de Sócrates, este se recusando à metáfora, indica que o desejo não tem sinal, que o desejo só pode se manifestar como falta, pois ele não tem objeto, não tem significante.

É certo que Sócrates sabe não-saber sobre o objeto, entretanto, tudo leva a crer que alguém é portador do Agalma, no caso Agaton. Sócrates diz que Alcebíades está identificado a ele Sócrates amando Agaton, portanto Alcebíades está identificado à imagem de Sócrates enquanto amante.

Sócrates aponta o engano de Alcebíades, ao mesmo tempo em que lhe indica a subordinação do seu desejo ao Outro.

Sobre o amor, entretanto existem perguntas, cujas respostas aparentemente nunca obteremos. Mas o que diram Agaton, Fedro, Pausânias, Aristodemo, Erixímaco, Aristófanes, Alcibíades e Sócrates, sobre o amor se o banquete fosse hoje, seria a mesma forma de amar?

O que é o Amor? http://is.gd/eWfGd ;
O dono da dor? http://is.gd/eWV1R

Mi – Cps, 05/09/10
Fontes: O Banquete http://is.gd/eTTOl / Conhecimento sem fronteiras http://is.gd/eW4uV /
Do amor que supera a eternidade e Sócrates http://is.gd/eW4Cj / Ágora psicanalítica http://is.gd/eWa0O / O bem platônico no Banquete http://is.gd/eWKFX