Saímos da caverna deixamos de ser nômades e aprendemos a plantar. Usamos a linguagem. O fogo e a roda já passam despercebidos por nós. Há constantes transformações no espaço e no tempo. O desenvolvimento é inegável e todas as possíveis perdas ocorridas ao longo da história da humanidade supostamente se fizeram compensar em ganhos para gerações futuras.
Contudo, desfrutamos de um mundo melhor?
Ainda nos incomodam os regimes autoritários, os atentados praticados em nome de Deus, as segregações, a intolerância religiosa, as pessoas cada vez mais grosseiras e estúpidas sem nada de educação, os abusos praticados contra jovens e crianças...
Então somos tão avançados, mas ainda temos notícias que, em diversas regiões morrem centenas de crianças tuberculosas e de fome. Há falta de saneamento e sobra desonestidade. Famílias vivem e comem nos lixões. O progresso e a modernidade, não conseguem acabar com a dengue, ou a H1N1.
Saímos do domínio dos reis e da Igreja, deixamos os feudos, buscamos a república, acalentamos a democracia e ainda não acabamos?
Este tempo ainda precisa de muitas respostas, soluções para chamá-lo de Pós-moderno. Precisamos de mais razão, sabedoria, conhecimento fundado a partir do que a tecnologia já nos proporciona, conhecimento sobre o respeito pelo outro, que muitas vezes embaçam nosso jeito de viver e sentir a vida.
Pasmem! Mas todas as épocas são modernas:
- Idade Moderna, Modernismo, pós-modernidade ou contemporaneidade.
- O cinema era mudo e Charlie já vivia em "Tempos Modernos".
- Tacila, Heitor, Oswald e Mario agitavam “Semana de Arte Moderna”.
- Roberto era a modernidade com seu estilo de músicas e roupas.
Enfim, citamos exemplos de modernidade em qualquer época, a.C ou d.C.
O contemporâneo não tem idade nem início ou fim, pois diariamente temos conhecimento dos avanços em alguma área, como se fossem tempos modernos.
Mas, uma coisa é certa, o ser humano por si só se destrói.
Para conseguir o “moderno”, primeiro começa a destruição do planeta, para que se mantenha a ditadura do consumo, porque é dele que se tira a idéia de que todos hoje devem estar na moda (modernidade), onde cultuamos a beleza exterior. Surge o desrespeito ao outro tanto no trânsito por conta dos seus possantes veículos modernos, como no trabalho, por causa da suposta confortabilidade que o tempo de hoje proporciona. E ainda os trogloditas modernos conservam a arrogância, a prepotência, a violência pelo poder de estar a frente de tudo isso.
Isso que é tempo de modernidade?
Podemos nos desenvolver muito mais como cidadãos e pessoas, pois cada um é que faz o tempo moderno. Plagiando Chaplin em Tempos Modernos: “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade, mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo será perdido”.
Para isso que o Tempo deveria corre, para a humanização de pessoas! Mí, Cps 06/10
domingo, 27 de junho de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Sobre a coruja
Símbolo da inteligência. Então a coruja, ave noturna tornou para os gregos a grande representante da busca pelo saber. Conforme a mitologia grega, a noite é o momento do pensamento intelectual. Por ter olhos grandes, ela representa uma pessoa mais preocupada em ter seu saber interior dilatado.
A coruja pode significar sabedoria, para educar tem que atentar-se à sensibilidade, aos argumentos e estimular a inteligência, sem esquecer da espiritualidade.
Que o diga a FILOSOFIA e a PEDAGOGIA. Mas, se alguns a tomam por outro significado não me diz respeito.
É Isso!
Mi - Cps, 27/06/10
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Arte é Arte e pronto!
Catedral de Milão
O que impressiona na Europa é o cuidado do seu povo com as obras de arte. Esta é de se ficar com a boca aberta de tanta perfeição. Uma criação gótica com fachada repleta de pilares com mais de 3.400 estátuas. Ninguém se cansar de admirá-la. Magnífico edifício na principal praça da cidade italiana de Milão, na Piazza del Duomo.
A 3ª maior catedral católica romana do mundo, atrás da Catedral de Sevilha e da Basílica São Pedro em Roma.
O Duomo é um dos fabulosos exemplos de monumentalidade e arquitetura entre tantas catedrais construídas na Europa durante a Idade Média, entre os séculos 9 e 12.
O telhado é todo em placas de mármore, a mesma da fachada e esculturas. Com vista de toda cidade e pode ser visitado. As altíssimas centenas de agulhas, de arcos e gárgulas, estátuas e cariátides esculpidos em mármore que impressionam.
A mais magestosa das imagens é a estatua dourada da Madonnina do Perego, situada no topo da agulha maior, onde foi colocada em 1744 com 108m.
A contrução durou +/- 900 anos, muitas vezes interrompido por falta de recursos financeiros. Trabalharam mais de 50 arquitetos para projetar sua estrutura.
Ocupa uma área de aproximadamente 11.700m², 157m comprimento. Pode conter 40 mil pessoas.
De longe se vê um grande número de agulhas que a coroa como um mármore da floresta real, uma vez que um total de cerca de 135 agulhas e a maioria coroados por grandes estátuas. "Dizem" que o Duomo foi projetado pelo pintor escultor,arqquiteto engenheiro cientista e inventor italiano Leonardo da Vinci.A fachada do Duomo tem estilo arquitetônico que vai do gótico ao renascentista, com alguns elementos neoclássicos. Ainda um rendilhado envolve janelas-vitrais e as enormes portas de bronze. Esculturas em baixos e altos-relevos que contam história da cidade.
A altura dos pilares góticos suportam o telhado de toda a igreja, onde delimitam suas naves laterais, secundárias e principal, além do altar-mór.
Enquadram vitrais igualmente gigantescos.
Há no interior cinco naves e 52 gigantescas colunas de pedra. O piso de mármore de outros tons forma belos desenhos que dão a nave central, a verdadeira e fabulosa dimensões da obra.
Em Milão quase tudo gira ao redor do Duomo, a Catedral de Milão, a terceira maior igreja da cristandade depois da Basílica de São Pedro, em Roma, e da Catedral de Sevilha.
Igrejas como as de Chartres , Amiens e Notre Dame de Paris (França), Sevilha e Santiago de Compostela (Espanha), Colônia (Alemanha) e o Duomo de Milão (Itália) são o exemplo máximo do estilo gótico — caracterizado pelo uso das ogivas (cruzamento de arcos), que possibilitavam a construção de altas estruturas.
Projetadas em medidas que reproduziam proporções do corpo humano provocam admiração. Há muitas estátuas no exterior e no interior deste edifício, um total aproximado de 3.159 trabalhos.
Dividida em naves separadas por colunas com capitéis decorados com grandes desenhos de origem vegetal. As esculturas de santos são bem vestidas.
À direita ha um monumento de Carlos V coroado na forma de um arco triunfal salienta uma das obras mais bem-sucedida de Leo Leoni. Gian Giacomo Médici é mostrado usando uma armadura romana e capa implantada no joelho esquerdo, acompanhada de alegorias da milícia do baixo-relevo do rio Adda. Duas colunas laterais externas seguram os números da prudência e da fama.
Ao entrar na cripta ouve-se pelas costas o coro magnífico. Ha uma capela subterrânea, rodeada por urnas de prata contendo os restos mortais de San Carlos Borromeo, cujo corpo coberto por roupas bonitas que podem ser vistos em uma urna de cristal foi a homenagem de Felipe IV, rei da Espanha.
Mi - Cps, 06/10
O que impressiona na Europa é o cuidado do seu povo com as obras de arte. Esta é de se ficar com a boca aberta de tanta perfeição. Uma criação gótica com fachada repleta de pilares com mais de 3.400 estátuas. Ninguém se cansar de admirá-la. Magnífico edifício na principal praça da cidade italiana de Milão, na Piazza del Duomo.
A 3ª maior catedral católica romana do mundo, atrás da Catedral de Sevilha e da Basílica São Pedro em Roma.
O Duomo é um dos fabulosos exemplos de monumentalidade e arquitetura entre tantas catedrais construídas na Europa durante a Idade Média, entre os séculos 9 e 12.
O telhado é todo em placas de mármore, a mesma da fachada e esculturas. Com vista de toda cidade e pode ser visitado. As altíssimas centenas de agulhas, de arcos e gárgulas, estátuas e cariátides esculpidos em mármore que impressionam.
A mais magestosa das imagens é a estatua dourada da Madonnina do Perego, situada no topo da agulha maior, onde foi colocada em 1744 com 108m.
A contrução durou +/- 900 anos, muitas vezes interrompido por falta de recursos financeiros. Trabalharam mais de 50 arquitetos para projetar sua estrutura.
Ocupa uma área de aproximadamente 11.700m², 157m comprimento. Pode conter 40 mil pessoas.
De longe se vê um grande número de agulhas que a coroa como um mármore da floresta real, uma vez que um total de cerca de 135 agulhas e a maioria coroados por grandes estátuas. "Dizem" que o Duomo foi projetado pelo pintor escultor,arqquiteto engenheiro cientista e inventor italiano Leonardo da Vinci.A altura dos pilares góticos suportam o telhado de toda a igreja, onde delimitam suas naves laterais, secundárias e principal, além do altar-mór.
Enquadram vitrais igualmente gigantescos.
Há no interior cinco naves e 52 gigantescas colunas de pedra. O piso de mármore de outros tons forma belos desenhos que dão a nave central, a verdadeira e fabulosa dimensões da obra.
Em Milão quase tudo gira ao redor do Duomo, a Catedral de Milão, a terceira maior igreja da cristandade depois da Basílica de São Pedro, em Roma, e da Catedral de Sevilha.
Igrejas como as de Chartres , Amiens e Notre Dame de Paris (França), Sevilha e Santiago de Compostela (Espanha), Colônia (Alemanha) e o Duomo de Milão (Itália) são o exemplo máximo do estilo gótico — caracterizado pelo uso das ogivas (cruzamento de arcos), que possibilitavam a construção de altas estruturas.
Projetadas em medidas que reproduziam proporções do corpo humano provocam admiração. Há muitas estátuas no exterior e no interior deste edifício, um total aproximado de 3.159 trabalhos.
Dividida em naves separadas por colunas com capitéis decorados com grandes desenhos de origem vegetal. As esculturas de santos são bem vestidas.
À direita ha um monumento de Carlos V coroado na forma de um arco triunfal salienta uma das obras mais bem-sucedida de Leo Leoni. Gian Giacomo Médici é mostrado usando uma armadura romana e capa implantada no joelho esquerdo, acompanhada de alegorias da milícia do baixo-relevo do rio Adda. Duas colunas laterais externas seguram os números da prudência e da fama.
Ao entrar na cripta ouve-se pelas costas o coro magnífico. Ha uma capela subterrânea, rodeada por urnas de prata contendo os restos mortais de San Carlos Borromeo, cujo corpo coberto por roupas bonitas que podem ser vistos em uma urna de cristal foi a homenagem de Felipe IV, rei da Espanha.
Mi - Cps, 06/10
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Supere o falar em público
O medo é a causa maior da dificuldade, mas não é o maior defeito.
Ele acarreta inúmeros problemas na comunicação: descontrolamos-nos, alteramos o tom de voz para baixo ou alto demais, artificial, agressivo, desarticulado, aceleramos a fala, ou diminuímos até chegarmos numa irritante nervosismo, enfim sentimo-nos inibidos, desconfortáveis e incompetentes. O maior defeito é não saber ordenar o pensamento.
O fracasso está em não sabe iniciar, desenvolver e concluir uma apresentação. Erros: entrar diretamente no assunto central sem conquistar a platéia, a torcida e a docilidade das pessoas; esforçar para conquistar os ouvintes quando estes já estão devidamente preparados para ouvir, corre-se o risco de desinteressá-los; passar de uma etapa para outra sem nenhum critério; encerrar voltando para o início; repetir argumentos que já haviam sido criteriosamente expostos começam a enfraquecer pelo excesso de repetição.
Esse problema é muito sério, pois se não soubermos como concatenar, ou seja, relacionar o raciocínio dificultará o entendimento dos ouvintes e igualmente a nossa própria exposição. A seqüência é extremamente fácil e pode ser assimilada e aplicada apenas com um mínimo de estudo e atenção. Em uma apresentação devemos seguir estas etapas, que organizarão a mensagem:
1) Introdução correta - Para conquistar ouvintes iniciamos fazendo alguns elogios sinceros demonstrando de forma gentil como estamos envolvidos com o ambiente e com o tema que pretendemos desenvolver. O bom é usarmos logo nos primeiros momentos uma frase de impacto, com pequena história, uma reflexão ou mostrar os benefícios do tema. No início a imparcialidade na opinião sobre o assunto, evita de contrariar os ouvintes. Em seguida concordamos com os pontos comuns e depois de quebrar as resistências podemos manifestar nosso pensamento.
2) Preparar o assunto - Começamos contando o assunto que pretendemos desenvolver, o problema a solucionar e as partes do assunto que temos intenção de cumprir. Caso saibam do assunto a abordar, do problema a ser solucionado e as partes que serão cumpridas, os ouvintes acompanharão com maior facilidade.
3) O que aplicar - Desenvolva o assunto proposto, solucione o problema e cumpra as etapas prometidas. É aqui, neste momento que você irá também apresentar seus argumentos. E se encontrar resistência dos ouvintes deverá refutar essas objeções.
4) A conclusão - O encerramento sempre será muito caprichado e não podemos esquecer de reservar o momento de maior emoção para o final. Em uma frase ou duas recapitularemos o assunto abordado e terminaremos fazendo com que os ouvintes reflitam ou ajam de acordo com a mensagem.
Dica: - O plano é simplificado e fácil de ser assimilado. Praticar esses conceitos é descobrir a facilidade ao abordar qualquer tipo de assunto. Assimilar a seqüência é fácil, mesmo assim podemos esquematizar maneiras para adquirir uma boa fala em três partes bem simples, para organizar e expor com tranqüilidade a mensagem: Contar sobre o que vai falar. Falar! Comentar sobre o que falou.
"Superação é o exercicio incansavel".
Mi – Base: Palestra do Reinaldo Polito
Cps, 06/10
Guimarães Rosa
A terceira margem do rio
Homem, meia-idade deixa familia e amigos para viver em uma canoa no meio de um rio e jamais volta a pisar na terra. Seu único contato com pessoas se dá através de um filho, que lhe deixa comida na margem. Os anos se passam a vida segue seu curso natural, mas o filho de uma certa forma
Loucura ou abandono? É a metáfora da origem, do destino e da travessia, a necessidade de viver águas, ora violentas, ora calmas, com o objetivo de chegar ao lugar almejado. O homem, normal, igual aos pais do lugar, sem nenhuma palavra despede-se da família e vai. Agora mora ou torna-se parte do rio. Isola-se e entra na categoria do diferente chocando o senso comum: permanecia nos espaços do rio, de meio a meio, rio acima, rio abaixo, sempre na canoa e dela não sai mais. Transforma-se em paisagem.
A família se adapta à realidade e cria outras margens para os muitos acontecimentos (nascimentos e mortes) do tempo. A culpa permeia todos, mas fingem não perceber a loucura. Silenciam. O filho acompanha sua trajetória e tenta definir os porquês. Rotinas misteriosas. Dirige-se a margem e propõe ao pai que troque de lugar com ele: tem de haver alguém que ouse desafiar as regras estabelecidas, que proponha o novo, o diferente, o inesperado.
Mas, o homem abandona a margem para ser meio. Por quê o filho abanda a travessia para ser margem?
Paisagens coisificadas no mundo, homens lançados à margem de qualquer possibilidade. Mas a travessia não traz consigo toda a simbologia da existência humana? A escolha não sugere, simultaneamente, a defesa de um espaço e a inserção do insólito, do não habitual?
Em termos filosóficos, isso equivale ao momento de equilíbrio. O fato de o pai, em vez de chegar a algum lugar, preferir continuar na canoa, traduz a sua consciência do aspecto mutável da existência. O contraste entre o modus vivendi do pai e o senso comum é metonimizado pela sua relação com o filho.
O filho que poderia continuar o projeto do pai em virtude de sua covardia fracassa por duas vezes: em menino no momento da partida do pai que não quer levá-lo consigo, então percebe-se amedrontado e desiste; já adulto, quando propõe a substituição e o pai aceita, então foge ao combinado. A coragem é um dos atributos mais valiosos do humano, mas deve o medo ser superado?
O maior contraste entre pai e filho é justamente a ousadia de um e o medo do outro. A vitalidade do pai parece derivar da vida livre que escolheu para si, e torna ainda mais flagrante a mesmice da vida comum do filho, “apenas um demoramento”.
Questionamentos elucidativos
Personagens sem nomes caracterizam o social. Quietude do pai tende ao isolamento. Mãe responsável pelo comando prático da família.
Pessoas que abandonam ideais e ficam a cargo da rotina; outras que enlouquecem e perdem o sentido, e ainda os que apenas preferem constituir calados, tornando-se indiferentes ao mundo. Não há responsabilidades ou objetivos, são apenas margens da margem num rio indiferente
A terceira margem do rio desperta para o mundo do inconsciente, do abstrato.
O pai, ao ir à procura dão rio busca o desconhecido dentro de si mesmo; o isolamento é a única maneira para entender os mistérios da alma, o incompreensível da vida e medo do desconhecido.
Por que evade de toda e qualquer convivência com a família e com a sociedade, preferindo a completa solidão do rio. Por que a busca pelo pai? Por quê não fez a troca? Medo do que?
Quem é o desequilibrado?
Pai, filho, os dois ou Nenhum dos dois?
A vida do filho torna-se reclusa e sem sentido, a não ser pelo desejo obstinado de entender os motivos da ausência do pai: “De que era que eu tinha tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência?”
Um ser humano cujos ideais de vida divergem dos padrões aceitos como normais. Atitude obstinada, ao mesmo tempo, afronta e perturba seus familiares e conhecidos, que se vêem obrigados a questionar as razões de seu isolamento e alienação.
Persistir na busca de entendimento da opção do pai chega a desejar substituí-lo. A escolha do isolamento no rio instiga permanentemente o filho, que é levado a questionar o próprio existir humano.
São tantos os rios e margens passíveis de travessia... E demonstra a possibilidade de navegação. O recomeço, a recriação de cada margem de origem e a transformação do destino em um novo porto inicial.
Margeiam os grandes rios, as ações, as diversas etapas de sua vida que demonstram a grandeza dos grandes navegadores
Travessias dão margens aos desbravamentos de nossas possibilidades de lutas e realizações. http://is.gd/d0tiC
ficção rosiana
Homem, meia-idade deixa familia e amigos para viver em uma canoa no meio de um rio e jamais volta a pisar na terra. Seu único contato com pessoas se dá através de um filho, que lhe deixa comida na margem. Os anos se passam a vida segue seu curso natural, mas o filho de uma certa forma
Loucura ou abandono? É a metáfora da origem, do destino e da travessia, a necessidade de viver águas, ora violentas, ora calmas, com o objetivo de chegar ao lugar almejado. O homem, normal, igual aos pais do lugar, sem nenhuma palavra despede-se da família e vai. Agora mora ou torna-se parte do rio. Isola-se e entra na categoria do diferente chocando o senso comum: permanecia nos espaços do rio, de meio a meio, rio acima, rio abaixo, sempre na canoa e dela não sai mais. Transforma-se em paisagem.
A família se adapta à realidade e cria outras margens para os muitos acontecimentos (nascimentos e mortes) do tempo. A culpa permeia todos, mas fingem não perceber a loucura. Silenciam. O filho acompanha sua trajetória e tenta definir os porquês. Rotinas misteriosas. Dirige-se a margem e propõe ao pai que troque de lugar com ele: tem de haver alguém que ouse desafiar as regras estabelecidas, que proponha o novo, o diferente, o inesperado.
Mas, o homem abandona a margem para ser meio. Por quê o filho abanda a travessia para ser margem?
Paisagens coisificadas no mundo, homens lançados à margem de qualquer possibilidade. Mas a travessia não traz consigo toda a simbologia da existência humana? A escolha não sugere, simultaneamente, a defesa de um espaço e a inserção do insólito, do não habitual?
Em termos filosóficos, isso equivale ao momento de equilíbrio. O fato de o pai, em vez de chegar a algum lugar, preferir continuar na canoa, traduz a sua consciência do aspecto mutável da existência. O contraste entre o modus vivendi do pai e o senso comum é metonimizado pela sua relação com o filho.
O filho que poderia continuar o projeto do pai em virtude de sua covardia fracassa por duas vezes: em menino no momento da partida do pai que não quer levá-lo consigo, então percebe-se amedrontado e desiste; já adulto, quando propõe a substituição e o pai aceita, então foge ao combinado. A coragem é um dos atributos mais valiosos do humano, mas deve o medo ser superado?
O maior contraste entre pai e filho é justamente a ousadia de um e o medo do outro. A vitalidade do pai parece derivar da vida livre que escolheu para si, e torna ainda mais flagrante a mesmice da vida comum do filho, “apenas um demoramento”.
Questionamentos elucidativos
Personagens sem nomes caracterizam o social. Quietude do pai tende ao isolamento. Mãe responsável pelo comando prático da família.
Pessoas que abandonam ideais e ficam a cargo da rotina; outras que enlouquecem e perdem o sentido, e ainda os que apenas preferem constituir calados, tornando-se indiferentes ao mundo. Não há responsabilidades ou objetivos, são apenas margens da margem num rio indiferente
A terceira margem do rio desperta para o mundo do inconsciente, do abstrato.
O pai, ao ir à procura dão rio busca o desconhecido dentro de si mesmo; o isolamento é a única maneira para entender os mistérios da alma, o incompreensível da vida e medo do desconhecido.
Por que evade de toda e qualquer convivência com a família e com a sociedade, preferindo a completa solidão do rio. Por que a busca pelo pai? Por quê não fez a troca? Medo do que?
Quem é o desequilibrado?
Pai, filho, os dois ou Nenhum dos dois?
A vida do filho torna-se reclusa e sem sentido, a não ser pelo desejo obstinado de entender os motivos da ausência do pai: “De que era que eu tinha tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência?”
Um ser humano cujos ideais de vida divergem dos padrões aceitos como normais. Atitude obstinada, ao mesmo tempo, afronta e perturba seus familiares e conhecidos, que se vêem obrigados a questionar as razões de seu isolamento e alienação.
Persistir na busca de entendimento da opção do pai chega a desejar substituí-lo. A escolha do isolamento no rio instiga permanentemente o filho, que é levado a questionar o próprio existir humano.
São tantos os rios e margens passíveis de travessia... E demonstra a possibilidade de navegação. O recomeço, a recriação de cada margem de origem e a transformação do destino em um novo porto inicial.
Margeiam os grandes rios, as ações, as diversas etapas de sua vida que demonstram a grandeza dos grandes navegadores
Travessias dão margens aos desbravamentos de nossas possibilidades de lutas e realizações. http://is.gd/d0tiC
ficção rosiana
domingo, 20 de junho de 2010
Aristóteles e a Ética a Nicômaco
Ética a Nicômaco é a principal e importante obra de ética de Aristóteles. Nela expõe sua concepção da: teleológica e eudaimonista de racionalidade prática; da virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência na Ética. É considerada a mais amadurecida e representativa obra do pensamento aristotélico.
Nicômaco seu filho e discípulo anotava as aulas e a obra talvez tenha sido o resultado. Publicadas por discípulos de Aristóteles após morte (combate) prematura de Nicômaco.
Aristóteles inicia as aulas sobre ética, discutindo idéias de seu mestre Platão - embora vá diferir em muitos pontos – passando de um idealismo para um realismo - a idéia fundamental de Aristóteles é, tanto quanto para Platão, o Bem Supremo, ou seja, felicidade.
No Livro há trecho expressivo do objeto e o sujeito do estudo da ética: a excelência moral, ex: - pode-se sentir medo, confiança, desejos, cólera, piedade, e, de um modo geral, prazer e sofrimento, demais ou muito pouco, e, em ambos os casos, isto não é bom. Mas experimentar estes sentimentos no momento certo, em relação aos objetos certos e às pessoas certas, e de maneira certa, é o meio termo e o melhor, e isto é característico da excelência. Há também, da mesma forma, excesso, falta e meio termo em relação às ações. Ora, a excelência moral se relaciona com as emoções e as ações, nas quais o excesso é uma forma de erro, tanto quanto a falta, enquanto o meio termo é louvado como um acerto. Ser louvado e estar certo são características da excelência moral. A excelência moral, portanto, é algo como eqüidistância, seu alvo é o meio termo. É possível errar de várias maneiras, ao passo que só é possível acertar de uma maneira (também por esta razão é fácil errar e difícil acertar – fácil errar o alvo, e difícil acertar nele). Por isto que o excesso e a falta são características da deficiência moral, e o meio termo é uma característica da excelência moral, pois a bondade é uma só, mas a maldade é múltipla.
Aristóteles aprofunda os ensinamentos de Platão (República), e elabora sua teoria ética a partir das estruturas morais vigentes na comunidade grega do sécV a.C. Pode-se dizer que a sua teoria apresenta o procedimento do homem prudente como um valor, cuja opinião dos homens mais velhos, a experiência da vida e os costumes da cidade são condições objetivas para se filosofar politicamente.
Diferentemente de Platão, Aristóteles humanizou o fim último afirmado no plano terreno. Por isso, o ético em Aristóteles é entendido a partir do ethos (do costume), da maneira concreta de viver vigente na sociedade. É o ethos que funciona como elo entre as esferas jurídica e política.
A obra de Aristóteles é sistemática e orientada ao fim último, o Bem Supremo, identificada com a felicidade, ou eudemonia, em grego. É por isso que inicia sua argumentação negando o postulado platônico. Mas, o fato de Aristóteles ter dedicado à Platão dois livros, o VIII e o IX, indica bem o grau de amizade. Sacrifica até suas relações pessoais mais estreitas em defesa da verdade. E o leva a concluir que “O bem, portanto, não é uma generalidade correspondente a uma forma única”. Isto porque o bem deve ser algo atingível pelo homem, através de sua atividade, e não um “bem em si”, ideal e inatingível.
Aristóteles, fiel ao método científico, estabelece uma espécie de classificação de bens, e uma hierarquia na sua realização, tomando como critério o fim visado. Já que há mais de uma finalidade: o fim da medicina é a saúde, da estratégia é a vitória: Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas (escolhê-lasiamos ainda que nada resultasse delas), escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de um modo geral, por qualquer coisa além dela mesma.
A felicidade não é uma forma abstrata, ideal. É uma forma de viver bem e conduzir-se bem.
Parece que a forma de vida tem profundas implicações na compreensão e realização do que seja “viver bem” e “conduzir-se bem”, em relação ao bem supremo. Por isso Aristóteles, ao mesmo tempo em que discute as características da felicidade, como algo que deve ser escolhida por si mesma, questiona a vida prática dos homens, especialmente dos mais vulgares, que parecem “identificar o bem, ou a felicidade, com o prazer". E, então, identifica três tipos principais de vida:
- A vida agradável “aproveitar a vida”, assemelhando-se “totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais”;
- A vida política “demonstra que as pessoas mais qualificadas e atuantes identificam a felicidade com as honrarias”, “com vistas ao reconhecimento de seus méritos”;
- A vida contemplativa, a verdade e a perfeição, ou o Bem Supremo por si mesmo, desenvolve ao longo de toda obra. Desta realidade advém a investigação ética e da elaboração de normas morais. A partir destas constatações começa a refletir sobre as questões éticas. Aristóteles começa com exemplos práticos da vida cotidiana.
Tal procedimento identifica o trabalho ético “comportamento prático-moral”, não estabelece normas, mas indica o caminho da “escolha correta”, em relação ao bem supremo. Por este motivo inicia a reflexão sobre a Arete (do grego "virtude" ou 'excelência moral"), se diferencia em duas espécies:
-a excelência intelectual (sophia), exemplos a sabedoria, a inteligência, o discernimento;
-a excelência moral (phrônesis), exemplos a liberdade e a moderação.
Na Ética a Nicômaco Aristóteles se ocupa da excelência moral, acentuando a phrônesis "discernimento" e em outras traduções "prudência".
A reflexão aristotélica quanto à ética compreende duas categorias de virtudes:
- as virtudes morais, fundamentadas na vontade, temos: a coragem, a generosidade, a magnificência, a doçura, a amizade e a justiça.
- as virtudes intelectuais ou dianoéticas, baseadas na razão são: a sabedoria, a temperança, a inteligência e a verdade.
Uma ação justa é quando realiza o equilíbrio das virtudes morais e as virtudes intelectuais.
O objetivo da ação moral é a justiça, assim como, a verdade é o objetivo da ação intelectual.
No sentido lato (amplo), a justiça configura o exercício de todas as virtudes, observando-se a instância da alteridade. Em sentido estrito, encontra-se como uma virtude ética que implica o princípio da igualdade. Aristóteles inicia sua ética a partir da realidade social de sua época. O ponto central torna-se o conceito de atividade; atividade no sentido de que o homem deve realizar ao máximo suas disposições naturais (aptidões). O homem deve buscar esse aperfeiçoamento para com isso alcançar a felicidade.
O cultivo da inteligência é o bem supremo, o summum bonum, logo sua concepção ética é denominada de ética das virtudes ou ética eudemônica, isso porque enfatiza a busca pelo bem viver e pela felicidade. O homem deve desenvolver suas aptidões para alcançar o seu fim (télos), sua perfeição, por isso que eudemonia e télos estão intrinsecamente ligados, formando uma ética imanente da felicidade terrena, portanto política.
O conceito de eudemonia está intimamente ligado ao conceito de justiça (apresentado por Platão na República), que também compreende a noção de justiça como uma virtude que precisa ser praticada constantemente e não pode ser tomada como aquisição contínua, mas como um exercício político. Aristóteles apresenta o conceito de virtude como hábito em potência, mas que precisa ser desenvolvido. A natureza oferece as condições de possibilidades para que o homem possa desenvolver suas aptidões conforme sua essência racional, nesse caso a justiça como um valor ético se desvela em nossos atos. Virtude e técnica nascem e se desenvolvem pelo exercício.
A prática da virtude não se confunde com um mero saber técnico. Não basta a conformidade, exige-se a consciência do ato virtuoso. O homem considerado justo deve agir por força de sua vontade racional. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles enumera três condições para que um ato seja virtuoso, a saber:
- (1º) o homem deve ter consciência da justiça de seu ato;
- (2º) a vontade deve agir motivada pela própria ação;
- (3º) deve-se agir com inabalável certeza da justeza do ato.
As virtudes são disposições ou hábitos adquiridos ao longo da vida e se fundamentam na idéia de que o homem deve sempre realizar o melhor de si. A virtude será uma espécie de meio termo, termo médio entre os extremos, evitando, assim por dizer, o excesso e a deficiência, uma vez que a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro e de modo consciente. O objeto da justiça é realizar a felicidade na pólis, o seu oposto, a injustiça, poderá ocorrer por falta ou por excesso.
Aristóteles distingue duas classes de justiça:
- a universal em sentido amplo pode ser definida como conformidade ao nomos (norma jurídica, costume, convenção social, tradição). Esta norma constituinte do nomos é dirigida a todos. A ação deve corresponder a um tipo de justo que é o justo legal. O membro da pólis se relaciona com todos os demais, ainda que virtualmente, e compartilha com todos os efeitos de sua atitude ou omissão. A justiça universal ressalta a importância da legalidade como um dos aspectos que fundamenta a coesão social. A comunidade existe virtualmente na pessoa de cada membro. O homem virtuoso é aquele em que, segundo seu agir, o elemento essencial passa pela observância do princípio neminem laedere (não prejudique a ninguém).
- a particular em sentido estrito o hábito de realizar a igualdade. Refere-se ao outro no sentido de uma relação direta entre partes, típica da experiência citadina. Vincula-se com a justiça universal, pois o transgressor da justiça particular se compromete também diante do nomos. O justo particular apresenta-se em duas formas distintas: o justo particular distributivo que assinala a justiça distributiva e o justo particular corretivo que apresenta a justiça corretiva. A idéia de justiça distributiva surge no sentido de igualdade na devida proporção. Essa modalidade de justiça regula as ações da sociedade política com seus membros e tem por objeto a justa distribuição dos bens públicos: honras, riquezas, encargos sociais e obrigações. Essa prática também se fundamenta na igualdade que não se confunde com uma igualdade matemática e rígida, mas geométrica ou proporcional que observa o dever de dar a cada um o que lhe é devido; observa os dotes naturais do cidadão, sua dignidade, o nível de suas funções, sua formação e posição na hierarquia organizacional da polis. O princípio de igualdade que figura neste tipo de justiça exige uma desigualdade de tratamento, pois sendo diferentes segundo o mérito, os benefícios a serem atribuídos também devem ser diferentes. A outra modalidade de justiça particular é a justiça corretiva ou sinalagmática, que se divide em comutativa e judicial. Trata-se de um tipo de justiça que regula as relações entre cidadãos e utiliza o critério do justo meio aritmético ou igualdade.
Para Aristóteles, a excelência moral não é emoção ou faculdade, mas disposição da alma - exatamente uma disposição para escolher o meio termo “significar aquilo que é eqüidistante em relação a cada um dos extremos, e que é o único e o mesmo em relação a todos os homens”. É a escolha justa, correta, feita com discernimento e encaminhada pela prudência.
Ela não pode ser uma emoção, porque a regula; não pode ser uma faculdade, porque, ao mesmo tempo que dela se vale para regular a emoção, no “espaço” que vai do prazer ao sofrimento1, a atrai para a ação, para orientar a atividade. É por possuir essa disposição que “um mestre em qualquer arte evita o excesso e a falta, buscando e preferindo o meio termo – o meio termo não em relação ao próprio objeto, mas em relação a nós”. Não é por outro motivo que “se afirma com freqüência que nada se pode acrescentar ou tirar às boas obras de arte”. O meio termo (mesotês) é, assim, o caminho ético para a excelência, para o “mestre na arte da vida”. Caminhar para ele requer, de um lado, o reconhecimento de que a felicidade não se confunde com o prazer e o sofrimento, visto que “é por causa do prazer que praticamos más ações, e é por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobiliantes”; de outro lado, a construção progressiva de uma consciência moral constituída, por assim dizer, pelos “meios termos” ou excelências morais, operada pelo discernimento e regulada pela reta razão.
Os “meios termos” investigados por Aristóteles, entre “vícios por deficiência” e “vícios por excesso”:
Vícios por deficiência - Meio Termo - Vícios por excesso
Covardia - Coragem - Temeridade
Insensibilidade - Temperança - Libertinagem
Avareza - Liberalidade - Esbanjamento
Vileza - Magnificiência - Vulgaridade
Modéstia - Respeito Próprio - Vaidade
Moleza - Prudência - Ambição
Indiferença - Gentileza - Irascibilidade
Descrédito Próprio - Veracidade - Orgulho
Rusticidade - Agudeza de Espírito - Zombaria
Enfado - Amizade - Condescendência
Desavergonhado - Modéstia - Timidez
Malevolência - Justa Indignação - Inveja
O homem precisa da prática reiterada de atos justos e ser moderado... Visto que “sem os praticar ninguém teria possibilidade de tornar-se bom”. Na ação que se forja o homem de excelência moral. Mas não em uma ação desordenada e irrefletida, desvinculada dos procedimentos mais nobiliantes do ser humano: A origem da ação (sua causa eficiente, e não final) é a escolha, e a origem da escolha está no desejo e no raciocínio dirigido a algum fim. É por isto que a escolha não pode existir sem a razão e o pensamento ou sem uma disposição moral, pois as boas e as más ações não podem existir sem uma combinação de pensamento e caráter.
Há em Aristóteles o íntimo relacionamento entre escolha-desejo-razão-ação-caráter. O esforço ético não é no aperfeiçoamento e ampliação do razão, em seu sentido “puro” ou teórico (esta é função da sophia), mas no “agir bem” para “viver bem”. Para tanto, o aperfeiçoamento e ampliação do caráter é importante. Porque o caráter é o “sujeito”, o “executivo” do desejo, que em última análise, no campo prático-moral, jaz na base da escolha e da ação. Por “melhor que seja o caráter”, este não transforma o “desejo de aproveitar a vida” em “desejo de reconhecimento”, nem este no “desejo de contemplação”. Ele “apenas” torna moral tal desejo, dentro de cada âmbito. É o domínio da razão, no seu sentido “máximo”, de vida contemplativa, que pode operar tais transformações. Para Aristóteles é impossível separar, a não ser didaticamente, as duas excelências: a intelectual e a moral. Por isso a acentuada relação entre a Ética e a Metafísica.
Outro tópico acentuado é o da emoção: “os desejos, a cólera, o medo, a temeridade, a inveja, a alegria, a amizade, o saudade, o ciúme, a emulação, a piedade, de um modo geral os sentimentos acompanhados de prazer ou sofrimento”. Associa emoção ao prazer ou sofrimento no sentido da prática de más ações ou quando deixamos de praticar nobres ações. Ao dar tal sentido ao prazer refere-se, à compreensão vulgar do prazer, associada à primeira espécie de vida. É a noção de prazer que deve-se usar da “reta razão”, bem como, a toda espécie de vício. Isto porque a reta razão opera sobretudo através do discernimento.
A reta razão é a razão orientada aos aspectos práticos da vida é a razão orientada a algum fim e não um fim em si mesma, como é a vida contemplativa. “... a excelência moral não é apenas a disposição consentânea com a reta razão; ela é a disposição em que está presente a reta razão, e o discernimento é a reta razão relativa à conduta”. É preciso ter uma disposição prática na vida para que o discernimento se manifeste. Se a vida contemplativa é a virtude mais elevada ela, por não levar a nenhum fim, não produz discernimento.
A felicidade de maneira subjetiva. Com um aperfeiçoamento, seu método típico, dos pontos de vista do senso comum. Coloca à prova sua definição comparando-a com as noções aceitas sobre a ventura humana conclui que prazer e gozo são apenas estados agradáveis para a alma. São elementos do bem-estar, da felicidade, mas não constituem a sua essência e não devem se tornar o objetivo principal da vida. Rejeita a noção de que uma vida devotada a ganhar dinheiro produzirá por si mesma a felicidade: “a vida dedicada a ganhar dinheiro é vivida sob compulsão”. A prosperidade razoável é um pressuposto da ventura, mas a riqueza não pode ser o bem supremo por ser essencialmente um meio de chegar a outros bens. Tampouco pode a honra ser o bem supremo por ser um bem exterior proporcionado pelo reconhecimento de outras pessoas, enquanto a felicidade deve vir de dentro da personalidade de quem o tem, é uma felicidade que se encontra na alma e não nos bens exteriores ou do corpo.
Diferencia seu conceito de bem do conceito platônico. Enquanto Platão trabalha com o bem em si, com a idéia de bem separada de nosso mundo, ele diz que existem tantos bens como ações e artes, trazendo o bem para a imanência, como atividade do homem. É nesse momento Aristóteles novamente metafísico, pai do conceito de essência, atribuindo todas as coisas a uma causa final. Neste sentido a felicidade aparece como o fim de cada atividade humana, como se a eudaimonia consistisse no cumprimento perfeito de nossa natureza entendida como essência e felicidade “algo final e auto-suficiente”. A felicidade é um estado do homem em que a sua natureza e aspirações essenciais se realizam plenamente conforme seus fins.
Algo restritos aos seres humanos para distinguir o gênero humano do reino animal. Encontra essa característica distintiva na capacidade de raciocinar do homem, que aparece tanto em sua resposta à razão como no exercício da razão. Resta, então, a atividade vital do elemento racional do homem; uma parte deste é dotada de razão no sentido de ser obediente a ela, e a outra no sentido de possuir a razão de pensar.
Sendo o elemento racional ativo peculiar ao homem, ele serve para definir sua própria função, que é viver ativamente conforme a razão. O homem bom é aquele que exerce com sucesso suas funções se realizando, elevando sua vida até a mais alta excelência de que é capaz, vivendo bem e feliz: “o bem para o homem vem a ser o exercício ativo das faculdades da alma de conformidade com a excelência”. A definição é complementada logo a seguir com a adição da frase “deve estender-se por toda a vida” para reforçar a afirmação de que um momento de felicidade não constitui a bem-aventurança (felicidade), assim como uma andorinha só não faz verão.
Esboço sobre o bem, discussão sobre a natureza das excelências ou virtudes humanas – de acordo com as quais a atividade humana deve se realizar – com o objetivo de fundamentar melhor sua ética. Atividade é a verdadeira essência da felicidade. É a felicidade em ato, não em potência. A virtude deve se mostrar nas ações “da mesma forma que nos jogos Olímpicos os coroados não são os homens mais fortes e belos, e sim os que competem (alguns destes serão vitoriosos), quem age conquista justamente, as coisas boas da vida”.
Definidas as duas espécies de excelência ou virtude:
- as morais (liberalidade e a moderação). Considera as virtudes morais como disposições ou atitudes para a ação, adquiridas mediante o exercício e aperfeiçoadas pela prática. Daí a importância do hábito no desenvolvimento desta excelência: as pessoas não nascem boas, mas nascem com a capacidade de tornarem-se boas se desenvolverem as disposições apropriadas mediante a prática reiterada de boas ações.
- as intelectuais (sabedoria, inteligência e o discernimento). Componente ainda mais importante do bem viver do que a excelência moral. É necessário ter prudência, ou sabedoria prática, para apreciar corretamente os fatores em qualquer situação em que é necessária a ação moral. Ela que nos capacita a selecionar os meios certos para atingir nossos objetivos desejados, pois trata de situações e problemas concretos que requerem deliberação. À semelhança das virtudes morais, é uma disposição para fazer boas escolhas podendo ser melhorada e fortalecida pela prática, estando completamente na parte racional da alma.
Reflexão sobre a escolha parece ser algo voluntário, porém a definição não é comum à irracionalidade; ela se faz contrária ao apetite e não se relacionando com o agradável e o doloroso. Ela não visa as coisas impossíveis, relaciona-se com os meios e não com os fins e não se identifica com a opinião. A escolha somente pode ser caracterizada a partir do binômio bondade-maldade.
As três razões que Aristóteles dedica dois livros à amizade:
- a philia é estruturalmente intrínseca à virtude e à felicidade;
- Sócrates e Platão já haviam analisado filosoficamente tal tema;
- o fato da sociedade grega dar à amizade uma importância capital, diferente das sociedades modernas.
Segundo Aristóteles são três as coisas que o homem ama, logo, três são as formas de amizade:
- útil - Os homens que amam em busca do útil, buscam um bem imediato, riquezas ou honras. Ama-se, não em vista do fim em si mesmo, mas como meio de adquirir vantagens.
- prazer - A forma em função do prazer é semelhante à forma de se amar pelo útil. Busca-se o prazer recíproco. A amizade é estável enquanto persistir este elo prazeroso. Estas duas espécies de amizade são acidentais. Quando uma das partes cessa de ser agradável ou útil, a outra deixa de amá-la.
- bem - Pelo bem, ama-se o outro por aquilo que ele é. Ama-se pela bondade. É a verdadeira forma de amizade e só é possível entre os amigos bom, com senso de justiça e equidade. Esta forma de amizade não é muito freqüente. Ela exige tempo, familiaridade, um habitus, digna entre os amigos bons e virtuosos. E a phrónesis auxilia na escolha de amigos recíprocos.
Para Aristóteles o amigo é um outro eu, possibilidade de autoconhecimento. Conhecemo-nos olhando para o outro. Devido a nossa finitude, procuramos atingir à perfeição moral no espelhamento do outro. É um momento essencial da vida feliz e implica reconhecimento, bondade e reciprocidade, atingindo a expansão social do eu. Assim, a amizade também é um bem supremo, um valor que nos conduz à eudaimonia - vivência da plenitude humana, mediada com amigos bons e vida contemplativa.
Conceito de prazer e sua relação com as excelências do homem.
O cerne da teoria aristotélica: o prazer não é algo a que se aspire por ele mesmo, que são, muito mais, as respectivas atividades. O gozo é algo que se acrescenta, mostra que o que se faz de bom grado decorre sem impedimento, não havendo oposição alguma entre virtude e felicidade. Para aquele que a pratica por ela mesma, também, e precisamente, a atividade virtuosa é uma atividade realizada com gozo. É dessa maneira que uma pessoa pode saber se esteve presente a disposição virtuosa em uma ação, pela quantidade de prazer ou desgosto que acompanha a ação. Se a pessoa não gosta de ser generosa, ou acha difícil ser comedida, não adquiriu a virtude, embora possa ter praticado uma ação virtuosa. Se, ao contrário, a pessoa se alegra com a prática da virtude em questão, então adquiriu aquela excelência especial. O prazer, nesse sentido, é a prova de um hábito formado.
Indicações sobre o caráter do prazer em relação ao equilíbrio e ao abandonar-se aos afetos daquele que não vive equilibradamente. Não apenas com referência aos prazeres corporais, mas também quanto aos sentimentos em todos os domínios da vida. O ser humano tem uma certa consciência do tempo: Mas a forma do prazer é perfeita a cada momento. É claro, então que o prazer e o movimento diferem entre si, e que o prazer deve ser uma das coisas que são um todo e perfeitas. Esta conclusão também pode ser corroborada pelo fato de o movimento ocupar necessariamente um lapso de tempo, enquanto um sentimento de prazer não ocupa, pois cada momento de prazer é um todo perfeito.
Esse prazer faz parte de um tempo “psicológico” que só pode ser satisfeito por uma felicidade que tenha uma certa constância e que não seja experimentado, como o prazer corporal, no instante e pelo contraste com a dor ou com a ausência de prazer.
Fonte: Texto parcial - Revista Diálogo Educacional - PUCPR
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/e/etica_a_nicomaco
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco
Nicômaco seu filho e discípulo anotava as aulas e a obra talvez tenha sido o resultado. Publicadas por discípulos de Aristóteles após morte (combate) prematura de Nicômaco.
Aristóteles inicia as aulas sobre ética, discutindo idéias de seu mestre Platão - embora vá diferir em muitos pontos – passando de um idealismo para um realismo - a idéia fundamental de Aristóteles é, tanto quanto para Platão, o Bem Supremo, ou seja, felicidade.
No Livro há trecho expressivo do objeto e o sujeito do estudo da ética: a excelência moral, ex: - pode-se sentir medo, confiança, desejos, cólera, piedade, e, de um modo geral, prazer e sofrimento, demais ou muito pouco, e, em ambos os casos, isto não é bom. Mas experimentar estes sentimentos no momento certo, em relação aos objetos certos e às pessoas certas, e de maneira certa, é o meio termo e o melhor, e isto é característico da excelência. Há também, da mesma forma, excesso, falta e meio termo em relação às ações. Ora, a excelência moral se relaciona com as emoções e as ações, nas quais o excesso é uma forma de erro, tanto quanto a falta, enquanto o meio termo é louvado como um acerto. Ser louvado e estar certo são características da excelência moral. A excelência moral, portanto, é algo como eqüidistância, seu alvo é o meio termo. É possível errar de várias maneiras, ao passo que só é possível acertar de uma maneira (também por esta razão é fácil errar e difícil acertar – fácil errar o alvo, e difícil acertar nele). Por isto que o excesso e a falta são características da deficiência moral, e o meio termo é uma característica da excelência moral, pois a bondade é uma só, mas a maldade é múltipla.
Aristóteles aprofunda os ensinamentos de Platão (República), e elabora sua teoria ética a partir das estruturas morais vigentes na comunidade grega do sécV a.C. Pode-se dizer que a sua teoria apresenta o procedimento do homem prudente como um valor, cuja opinião dos homens mais velhos, a experiência da vida e os costumes da cidade são condições objetivas para se filosofar politicamente.
Diferentemente de Platão, Aristóteles humanizou o fim último afirmado no plano terreno. Por isso, o ético em Aristóteles é entendido a partir do ethos (do costume), da maneira concreta de viver vigente na sociedade. É o ethos que funciona como elo entre as esferas jurídica e política.
A obra de Aristóteles é sistemática e orientada ao fim último, o Bem Supremo, identificada com a felicidade, ou eudemonia, em grego. É por isso que inicia sua argumentação negando o postulado platônico. Mas, o fato de Aristóteles ter dedicado à Platão dois livros, o VIII e o IX, indica bem o grau de amizade. Sacrifica até suas relações pessoais mais estreitas em defesa da verdade. E o leva a concluir que “O bem, portanto, não é uma generalidade correspondente a uma forma única”. Isto porque o bem deve ser algo atingível pelo homem, através de sua atividade, e não um “bem em si”, ideal e inatingível.
Aristóteles, fiel ao método científico, estabelece uma espécie de classificação de bens, e uma hierarquia na sua realização, tomando como critério o fim visado. Já que há mais de uma finalidade: o fim da medicina é a saúde, da estratégia é a vitória: Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas (escolhê-lasiamos ainda que nada resultasse delas), escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de um modo geral, por qualquer coisa além dela mesma.
A felicidade não é uma forma abstrata, ideal. É uma forma de viver bem e conduzir-se bem.
Parece que a forma de vida tem profundas implicações na compreensão e realização do que seja “viver bem” e “conduzir-se bem”, em relação ao bem supremo. Por isso Aristóteles, ao mesmo tempo em que discute as características da felicidade, como algo que deve ser escolhida por si mesma, questiona a vida prática dos homens, especialmente dos mais vulgares, que parecem “identificar o bem, ou a felicidade, com o prazer". E, então, identifica três tipos principais de vida:
- A vida agradável “aproveitar a vida”, assemelhando-se “totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais”;
- A vida política “demonstra que as pessoas mais qualificadas e atuantes identificam a felicidade com as honrarias”, “com vistas ao reconhecimento de seus méritos”;
- A vida contemplativa, a verdade e a perfeição, ou o Bem Supremo por si mesmo, desenvolve ao longo de toda obra. Desta realidade advém a investigação ética e da elaboração de normas morais. A partir destas constatações começa a refletir sobre as questões éticas. Aristóteles começa com exemplos práticos da vida cotidiana.
Tal procedimento identifica o trabalho ético “comportamento prático-moral”, não estabelece normas, mas indica o caminho da “escolha correta”, em relação ao bem supremo. Por este motivo inicia a reflexão sobre a Arete (do grego "virtude" ou 'excelência moral"), se diferencia em duas espécies:
-a excelência intelectual (sophia), exemplos a sabedoria, a inteligência, o discernimento;
-a excelência moral (phrônesis), exemplos a liberdade e a moderação.
Na Ética a Nicômaco Aristóteles se ocupa da excelência moral, acentuando a phrônesis "discernimento" e em outras traduções "prudência".
A reflexão aristotélica quanto à ética compreende duas categorias de virtudes:
- as virtudes morais, fundamentadas na vontade, temos: a coragem, a generosidade, a magnificência, a doçura, a amizade e a justiça.
- as virtudes intelectuais ou dianoéticas, baseadas na razão são: a sabedoria, a temperança, a inteligência e a verdade.
Uma ação justa é quando realiza o equilíbrio das virtudes morais e as virtudes intelectuais.
O objetivo da ação moral é a justiça, assim como, a verdade é o objetivo da ação intelectual.
No sentido lato (amplo), a justiça configura o exercício de todas as virtudes, observando-se a instância da alteridade. Em sentido estrito, encontra-se como uma virtude ética que implica o princípio da igualdade. Aristóteles inicia sua ética a partir da realidade social de sua época. O ponto central torna-se o conceito de atividade; atividade no sentido de que o homem deve realizar ao máximo suas disposições naturais (aptidões). O homem deve buscar esse aperfeiçoamento para com isso alcançar a felicidade.
O cultivo da inteligência é o bem supremo, o summum bonum, logo sua concepção ética é denominada de ética das virtudes ou ética eudemônica, isso porque enfatiza a busca pelo bem viver e pela felicidade. O homem deve desenvolver suas aptidões para alcançar o seu fim (télos), sua perfeição, por isso que eudemonia e télos estão intrinsecamente ligados, formando uma ética imanente da felicidade terrena, portanto política.
O conceito de eudemonia está intimamente ligado ao conceito de justiça (apresentado por Platão na República), que também compreende a noção de justiça como uma virtude que precisa ser praticada constantemente e não pode ser tomada como aquisição contínua, mas como um exercício político. Aristóteles apresenta o conceito de virtude como hábito em potência, mas que precisa ser desenvolvido. A natureza oferece as condições de possibilidades para que o homem possa desenvolver suas aptidões conforme sua essência racional, nesse caso a justiça como um valor ético se desvela em nossos atos. Virtude e técnica nascem e se desenvolvem pelo exercício.
A prática da virtude não se confunde com um mero saber técnico. Não basta a conformidade, exige-se a consciência do ato virtuoso. O homem considerado justo deve agir por força de sua vontade racional. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles enumera três condições para que um ato seja virtuoso, a saber:
- (1º) o homem deve ter consciência da justiça de seu ato;
- (2º) a vontade deve agir motivada pela própria ação;
- (3º) deve-se agir com inabalável certeza da justeza do ato.
As virtudes são disposições ou hábitos adquiridos ao longo da vida e se fundamentam na idéia de que o homem deve sempre realizar o melhor de si. A virtude será uma espécie de meio termo, termo médio entre os extremos, evitando, assim por dizer, o excesso e a deficiência, uma vez que a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro e de modo consciente. O objeto da justiça é realizar a felicidade na pólis, o seu oposto, a injustiça, poderá ocorrer por falta ou por excesso.
Aristóteles distingue duas classes de justiça:
- a universal em sentido amplo pode ser definida como conformidade ao nomos (norma jurídica, costume, convenção social, tradição). Esta norma constituinte do nomos é dirigida a todos. A ação deve corresponder a um tipo de justo que é o justo legal. O membro da pólis se relaciona com todos os demais, ainda que virtualmente, e compartilha com todos os efeitos de sua atitude ou omissão. A justiça universal ressalta a importância da legalidade como um dos aspectos que fundamenta a coesão social. A comunidade existe virtualmente na pessoa de cada membro. O homem virtuoso é aquele em que, segundo seu agir, o elemento essencial passa pela observância do princípio neminem laedere (não prejudique a ninguém).
- a particular em sentido estrito o hábito de realizar a igualdade. Refere-se ao outro no sentido de uma relação direta entre partes, típica da experiência citadina. Vincula-se com a justiça universal, pois o transgressor da justiça particular se compromete também diante do nomos. O justo particular apresenta-se em duas formas distintas: o justo particular distributivo que assinala a justiça distributiva e o justo particular corretivo que apresenta a justiça corretiva. A idéia de justiça distributiva surge no sentido de igualdade na devida proporção. Essa modalidade de justiça regula as ações da sociedade política com seus membros e tem por objeto a justa distribuição dos bens públicos: honras, riquezas, encargos sociais e obrigações. Essa prática também se fundamenta na igualdade que não se confunde com uma igualdade matemática e rígida, mas geométrica ou proporcional que observa o dever de dar a cada um o que lhe é devido; observa os dotes naturais do cidadão, sua dignidade, o nível de suas funções, sua formação e posição na hierarquia organizacional da polis. O princípio de igualdade que figura neste tipo de justiça exige uma desigualdade de tratamento, pois sendo diferentes segundo o mérito, os benefícios a serem atribuídos também devem ser diferentes. A outra modalidade de justiça particular é a justiça corretiva ou sinalagmática, que se divide em comutativa e judicial. Trata-se de um tipo de justiça que regula as relações entre cidadãos e utiliza o critério do justo meio aritmético ou igualdade.
Para Aristóteles, a excelência moral não é emoção ou faculdade, mas disposição da alma - exatamente uma disposição para escolher o meio termo “significar aquilo que é eqüidistante em relação a cada um dos extremos, e que é o único e o mesmo em relação a todos os homens”. É a escolha justa, correta, feita com discernimento e encaminhada pela prudência.
Ela não pode ser uma emoção, porque a regula; não pode ser uma faculdade, porque, ao mesmo tempo que dela se vale para regular a emoção, no “espaço” que vai do prazer ao sofrimento1, a atrai para a ação, para orientar a atividade. É por possuir essa disposição que “um mestre em qualquer arte evita o excesso e a falta, buscando e preferindo o meio termo – o meio termo não em relação ao próprio objeto, mas em relação a nós”. Não é por outro motivo que “se afirma com freqüência que nada se pode acrescentar ou tirar às boas obras de arte”. O meio termo (mesotês) é, assim, o caminho ético para a excelência, para o “mestre na arte da vida”. Caminhar para ele requer, de um lado, o reconhecimento de que a felicidade não se confunde com o prazer e o sofrimento, visto que “é por causa do prazer que praticamos más ações, e é por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobiliantes”; de outro lado, a construção progressiva de uma consciência moral constituída, por assim dizer, pelos “meios termos” ou excelências morais, operada pelo discernimento e regulada pela reta razão.
Os “meios termos” investigados por Aristóteles, entre “vícios por deficiência” e “vícios por excesso”:
Vícios por deficiência - Meio Termo - Vícios por excesso
Covardia - Coragem - Temeridade
Insensibilidade - Temperança - Libertinagem
Avareza - Liberalidade - Esbanjamento
Vileza - Magnificiência - Vulgaridade
Modéstia - Respeito Próprio - Vaidade
Moleza - Prudência - Ambição
Indiferença - Gentileza - Irascibilidade
Descrédito Próprio - Veracidade - Orgulho
Rusticidade - Agudeza de Espírito - Zombaria
Enfado - Amizade - Condescendência
Desavergonhado - Modéstia - Timidez
Malevolência - Justa Indignação - Inveja
O homem precisa da prática reiterada de atos justos e ser moderado... Visto que “sem os praticar ninguém teria possibilidade de tornar-se bom”. Na ação que se forja o homem de excelência moral. Mas não em uma ação desordenada e irrefletida, desvinculada dos procedimentos mais nobiliantes do ser humano: A origem da ação (sua causa eficiente, e não final) é a escolha, e a origem da escolha está no desejo e no raciocínio dirigido a algum fim. É por isto que a escolha não pode existir sem a razão e o pensamento ou sem uma disposição moral, pois as boas e as más ações não podem existir sem uma combinação de pensamento e caráter.
Há em Aristóteles o íntimo relacionamento entre escolha-desejo-razão-ação-caráter. O esforço ético não é no aperfeiçoamento e ampliação do razão, em seu sentido “puro” ou teórico (esta é função da sophia), mas no “agir bem” para “viver bem”. Para tanto, o aperfeiçoamento e ampliação do caráter é importante. Porque o caráter é o “sujeito”, o “executivo” do desejo, que em última análise, no campo prático-moral, jaz na base da escolha e da ação. Por “melhor que seja o caráter”, este não transforma o “desejo de aproveitar a vida” em “desejo de reconhecimento”, nem este no “desejo de contemplação”. Ele “apenas” torna moral tal desejo, dentro de cada âmbito. É o domínio da razão, no seu sentido “máximo”, de vida contemplativa, que pode operar tais transformações. Para Aristóteles é impossível separar, a não ser didaticamente, as duas excelências: a intelectual e a moral. Por isso a acentuada relação entre a Ética e a Metafísica.
Outro tópico acentuado é o da emoção: “os desejos, a cólera, o medo, a temeridade, a inveja, a alegria, a amizade, o saudade, o ciúme, a emulação, a piedade, de um modo geral os sentimentos acompanhados de prazer ou sofrimento”. Associa emoção ao prazer ou sofrimento no sentido da prática de más ações ou quando deixamos de praticar nobres ações. Ao dar tal sentido ao prazer refere-se, à compreensão vulgar do prazer, associada à primeira espécie de vida. É a noção de prazer que deve-se usar da “reta razão”, bem como, a toda espécie de vício. Isto porque a reta razão opera sobretudo através do discernimento.
A reta razão é a razão orientada aos aspectos práticos da vida é a razão orientada a algum fim e não um fim em si mesma, como é a vida contemplativa. “... a excelência moral não é apenas a disposição consentânea com a reta razão; ela é a disposição em que está presente a reta razão, e o discernimento é a reta razão relativa à conduta”. É preciso ter uma disposição prática na vida para que o discernimento se manifeste. Se a vida contemplativa é a virtude mais elevada ela, por não levar a nenhum fim, não produz discernimento.
A felicidade de maneira subjetiva. Com um aperfeiçoamento, seu método típico, dos pontos de vista do senso comum. Coloca à prova sua definição comparando-a com as noções aceitas sobre a ventura humana conclui que prazer e gozo são apenas estados agradáveis para a alma. São elementos do bem-estar, da felicidade, mas não constituem a sua essência e não devem se tornar o objetivo principal da vida. Rejeita a noção de que uma vida devotada a ganhar dinheiro produzirá por si mesma a felicidade: “a vida dedicada a ganhar dinheiro é vivida sob compulsão”. A prosperidade razoável é um pressuposto da ventura, mas a riqueza não pode ser o bem supremo por ser essencialmente um meio de chegar a outros bens. Tampouco pode a honra ser o bem supremo por ser um bem exterior proporcionado pelo reconhecimento de outras pessoas, enquanto a felicidade deve vir de dentro da personalidade de quem o tem, é uma felicidade que se encontra na alma e não nos bens exteriores ou do corpo.
Diferencia seu conceito de bem do conceito platônico. Enquanto Platão trabalha com o bem em si, com a idéia de bem separada de nosso mundo, ele diz que existem tantos bens como ações e artes, trazendo o bem para a imanência, como atividade do homem. É nesse momento Aristóteles novamente metafísico, pai do conceito de essência, atribuindo todas as coisas a uma causa final. Neste sentido a felicidade aparece como o fim de cada atividade humana, como se a eudaimonia consistisse no cumprimento perfeito de nossa natureza entendida como essência e felicidade “algo final e auto-suficiente”. A felicidade é um estado do homem em que a sua natureza e aspirações essenciais se realizam plenamente conforme seus fins.
Algo restritos aos seres humanos para distinguir o gênero humano do reino animal. Encontra essa característica distintiva na capacidade de raciocinar do homem, que aparece tanto em sua resposta à razão como no exercício da razão. Resta, então, a atividade vital do elemento racional do homem; uma parte deste é dotada de razão no sentido de ser obediente a ela, e a outra no sentido de possuir a razão de pensar.
Sendo o elemento racional ativo peculiar ao homem, ele serve para definir sua própria função, que é viver ativamente conforme a razão. O homem bom é aquele que exerce com sucesso suas funções se realizando, elevando sua vida até a mais alta excelência de que é capaz, vivendo bem e feliz: “o bem para o homem vem a ser o exercício ativo das faculdades da alma de conformidade com a excelência”. A definição é complementada logo a seguir com a adição da frase “deve estender-se por toda a vida” para reforçar a afirmação de que um momento de felicidade não constitui a bem-aventurança (felicidade), assim como uma andorinha só não faz verão.
Esboço sobre o bem, discussão sobre a natureza das excelências ou virtudes humanas – de acordo com as quais a atividade humana deve se realizar – com o objetivo de fundamentar melhor sua ética. Atividade é a verdadeira essência da felicidade. É a felicidade em ato, não em potência. A virtude deve se mostrar nas ações “da mesma forma que nos jogos Olímpicos os coroados não são os homens mais fortes e belos, e sim os que competem (alguns destes serão vitoriosos), quem age conquista justamente, as coisas boas da vida”.
Definidas as duas espécies de excelência ou virtude:
- as morais (liberalidade e a moderação). Considera as virtudes morais como disposições ou atitudes para a ação, adquiridas mediante o exercício e aperfeiçoadas pela prática. Daí a importância do hábito no desenvolvimento desta excelência: as pessoas não nascem boas, mas nascem com a capacidade de tornarem-se boas se desenvolverem as disposições apropriadas mediante a prática reiterada de boas ações.
- as intelectuais (sabedoria, inteligência e o discernimento). Componente ainda mais importante do bem viver do que a excelência moral. É necessário ter prudência, ou sabedoria prática, para apreciar corretamente os fatores em qualquer situação em que é necessária a ação moral. Ela que nos capacita a selecionar os meios certos para atingir nossos objetivos desejados, pois trata de situações e problemas concretos que requerem deliberação. À semelhança das virtudes morais, é uma disposição para fazer boas escolhas podendo ser melhorada e fortalecida pela prática, estando completamente na parte racional da alma.
Reflexão sobre a escolha parece ser algo voluntário, porém a definição não é comum à irracionalidade; ela se faz contrária ao apetite e não se relacionando com o agradável e o doloroso. Ela não visa as coisas impossíveis, relaciona-se com os meios e não com os fins e não se identifica com a opinião. A escolha somente pode ser caracterizada a partir do binômio bondade-maldade.
As três razões que Aristóteles dedica dois livros à amizade:
- a philia é estruturalmente intrínseca à virtude e à felicidade;
- Sócrates e Platão já haviam analisado filosoficamente tal tema;
- o fato da sociedade grega dar à amizade uma importância capital, diferente das sociedades modernas.
Segundo Aristóteles são três as coisas que o homem ama, logo, três são as formas de amizade:
- útil - Os homens que amam em busca do útil, buscam um bem imediato, riquezas ou honras. Ama-se, não em vista do fim em si mesmo, mas como meio de adquirir vantagens.
- prazer - A forma em função do prazer é semelhante à forma de se amar pelo útil. Busca-se o prazer recíproco. A amizade é estável enquanto persistir este elo prazeroso. Estas duas espécies de amizade são acidentais. Quando uma das partes cessa de ser agradável ou útil, a outra deixa de amá-la.
- bem - Pelo bem, ama-se o outro por aquilo que ele é. Ama-se pela bondade. É a verdadeira forma de amizade e só é possível entre os amigos bom, com senso de justiça e equidade. Esta forma de amizade não é muito freqüente. Ela exige tempo, familiaridade, um habitus, digna entre os amigos bons e virtuosos. E a phrónesis auxilia na escolha de amigos recíprocos.
Para Aristóteles o amigo é um outro eu, possibilidade de autoconhecimento. Conhecemo-nos olhando para o outro. Devido a nossa finitude, procuramos atingir à perfeição moral no espelhamento do outro. É um momento essencial da vida feliz e implica reconhecimento, bondade e reciprocidade, atingindo a expansão social do eu. Assim, a amizade também é um bem supremo, um valor que nos conduz à eudaimonia - vivência da plenitude humana, mediada com amigos bons e vida contemplativa.
Conceito de prazer e sua relação com as excelências do homem.
O cerne da teoria aristotélica: o prazer não é algo a que se aspire por ele mesmo, que são, muito mais, as respectivas atividades. O gozo é algo que se acrescenta, mostra que o que se faz de bom grado decorre sem impedimento, não havendo oposição alguma entre virtude e felicidade. Para aquele que a pratica por ela mesma, também, e precisamente, a atividade virtuosa é uma atividade realizada com gozo. É dessa maneira que uma pessoa pode saber se esteve presente a disposição virtuosa em uma ação, pela quantidade de prazer ou desgosto que acompanha a ação. Se a pessoa não gosta de ser generosa, ou acha difícil ser comedida, não adquiriu a virtude, embora possa ter praticado uma ação virtuosa. Se, ao contrário, a pessoa se alegra com a prática da virtude em questão, então adquiriu aquela excelência especial. O prazer, nesse sentido, é a prova de um hábito formado.
Indicações sobre o caráter do prazer em relação ao equilíbrio e ao abandonar-se aos afetos daquele que não vive equilibradamente. Não apenas com referência aos prazeres corporais, mas também quanto aos sentimentos em todos os domínios da vida. O ser humano tem uma certa consciência do tempo: Mas a forma do prazer é perfeita a cada momento. É claro, então que o prazer e o movimento diferem entre si, e que o prazer deve ser uma das coisas que são um todo e perfeitas. Esta conclusão também pode ser corroborada pelo fato de o movimento ocupar necessariamente um lapso de tempo, enquanto um sentimento de prazer não ocupa, pois cada momento de prazer é um todo perfeito.
Esse prazer faz parte de um tempo “psicológico” que só pode ser satisfeito por uma felicidade que tenha uma certa constância e que não seja experimentado, como o prazer corporal, no instante e pelo contraste com a dor ou com a ausência de prazer.
Fonte: Texto parcial - Revista Diálogo Educacional - PUCPR
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/e/etica_a_nicomaco
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco
sábado, 19 de junho de 2010
Chico Buarque
Jamais se passa pela história da MPB sem esbarrar no Chico. Um dos grandes Gênios que temos na música, teatro e literatura.
Filho de Sergio Buarque de Hollanda um historiador brasileiro que dirigiu o museu do Ipiranga e lecionou na Universidade de Roma.
Mas, como diz o Chalita: "o fruto nunca cai longe da árvore".
Em criança, Chico teve contato com grandes personalidades da nossa cultura, que frequentavam sua casa, como: Vinicius de Moraes seu parceiro mais tarde; Baden Powell e João Gilberto. Influenciado por sua mãe a pianista Maria Amélia Cesário Alvim e por sua irmã Miúcha, grande ícone da Bossa Nova.
Chico começou a publicar suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Em 1969 abandonou o 3º ano na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), motivado pelo clima de repressão que tomava conta das universidades após o golpe de 1964.
No ano seguinte, Começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e gravou pela RGE o primeiro compacto, com canções como Pedro Pedreiro e Sonho de um Carnaval. Desde então, não parou mais de compor e de se apresentar em festivais internacionais de música, além do programa O Fino da Bossa, da TV Record. Ainda em 1965, conheceu Gilberto Gil em um bar, reduto paulista da Bossa Nova. Em um show estudantil, conheceu Caetano Veloso, que se entusiasmado ao ouvi-lo cantando Olê, olá.
Em 1966 no II Festival da MPB tornou-se conhecido no Brasil inteiro pelo 1º lugar de sua música A Banda, interpretada por Nara Leão empatada com Disparada, de Geraldo Vandré. Daí começou a fazer história. Foi a revolução da música brasileira nos tempos duros da ditadura. Censurado por qualquer motivo, mas sempre driblava as barreiras da repressão. Críticas negativas nas entrelinhas de suas músicas, com cuidados redobrados nas composições. Então criou Julinho da Adelaide, pseudônimo para burlar a censura e compôs três canções: Milagre Brasileiro, Acorda Amor e Jorge Maravilha.
Foi obrigado a se exilar na Itália devido ameaças. Ao retornar ao Brasil continuou sendo um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização, através de suas letras. Fez parcerias com Tom, Vinícius, Toquinho, Milton, Francis Hime, Edu Lobo e Caetano.
Chico é muito respeitado pelo espaço conquistado na literatura e no teatro. Musicou para o teatro Morte e vida Severina e o infantil Os Saltimbancos, que se tornou muito popular. Escreveu as peças Roda Viva e Calabar, que foram censuradas pela ditadura, Gota d'Água, Ópera do malandro e os livros: Estorvo, Benjamim, Budapeste, que virou filme e ganhou o Prêmio Jabuti, e o recente Leite Derramado.
Hoje sua significância e referência não se apegam às necessidades de divulgações nas mídias populares, são 66 anos de verdadeira contribuição à história brasileira.
Revivendo a história sobre Calabar - o elogio da traição,
Peça teatral sobre a traição de Calabar, personagem da história brasileira que foi considerado traidor por ficar ao lado dos holandeses na guerra contra Portugal. Na década de 70, a dramaturgia nacional era alvo do mesmo patrulhamento que cerceava a liberdade de músicos, políticos, escritores, educadores e tantos outros. E neste contexto dois importantes artistas escrevem uma das páginas mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo.
Exemplo de utilização da matéria histórica como instrumento gerador de reflexão, Calabar - o elogio da traição, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, é relançado pela Civilização Brasileira com novo projeto gráfico. Escrita entre os anos de 1972 e 1973, no auge da ditadura militar brasileira e as vésperas do abril florido da revolução portuguesa. Alegoria histórica que se passa na época das invasões holandesas em Pernambuco, no sécXVII.
Aborda a questão da lealdade e da traição, numa clara alusão à conjuntura política do período em que foi escrito. Com sensibilidade e inteligência, a peça amplia o debate ideológico de forma provocativa, irônica, quase caricatural. Os conceitos de traidor e traição, se subjetivos tornam-se ainda menos palpáveis na obra de Chico e Ruy. Afinal, onde está a traição: nos mantenedores da ordem ou na rebeldia dos heróis? E quem são, de fato, os heróis e os vilões?
Fernando Peixoto, em 1980 relatou o texto “mal-comportado, e por isso estimula a elaboração de um espetáculo debochado, capaz de assumir a quase anárquica, mas organizada colagem e a justaposição de imagens e épocas".
A Peça dividiu o público, espalhou pontos de interrogação, dúvidas e perplexidades. Surpreendeu pelo atualizado deboche crítico, fundamentado num confronto realista com temas essenciais de nossa existência de nação social-econômica-política- culturalmente ainda colonizada num tímido mas empenhado esforço de construção de uma democrática cultura nacional-popular. Há sensibilidade e inteligência na utilização da matéria histórica como instrumento capaz de instaurar uma conseqüente reflexão que ultrapassa os limites de determinadas circunstâncias político-econômicas e amplia o debate ideológico de forma irônica, provocativa, apoiada em extrema e contagiante teatralidade, usando a postura crítica e a desmedida coragem de assumir o grotesco. A obra desmistifica o conceito de traidor e a noção vazia e abstrata de traição.
Texto
"E se vocês rirem de mim. Se eu for alvo de chacotas e chalaças. Se for ridículo na jaqueta de veludo.
Ou nas ceroulas de brim. Ou porque falo tanto de caganeira e bacalhau. É bom pensarem duas vezes, porque, ainda mesmo assim. Com lombrigas dançando dentro da barriga. Com a Holanda, a Espanha e toda a intriga. Eu sou aquele que, custe o que custar. Acerta o laço e tece o fio. Que enforca Calabar."
Tanto mar
A peça dirigida por Fernando Peixoto relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu ficar ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Era uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de trinta mil dólares e empregava mais de oitenta pessoas.
O Brasil sob a opressão era comum o uso das metáforas pelos artistas, a figura de Armando Falcão, Ministro da Justiça, encarregado dessa tarefa canhestra e denunciar a situação atual.
Chico mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia - serviu de mote para justamente questionar a chamada versão oficial.
Na peça, Domingo Calabar passa de comerciante que visava o lucro, traíra os portugueses e colonos brasileiros - para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro que na verdade era um conceito inexistente, no sécXVIII.
A intenção de Chico e Guerra porém, era denunciar um erro histórico, nem tinha a pretensão de promover uma revisão: o alvo era, justamente, o próprio regime militar, sua censura, os veículos de comunicação que, engessados pelas versões dos fatos sempre acordes com o sistema, passavam ao povo imagens que precisavam ser questionadas em sua veracidade.
Dentre as músicas que compõem o repertório da obra, algumas foram sucesso, como "Não existe pecado ao sul do Equador" interpretada por Ney Matogrosso; "Cala a boca, Bárbara", e outras.
A censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20/10/1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e proibiu que a proibição fosse divulgada.
O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme e 6 anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.
O livro - Publicado em 1994, pela editora Civilização Brasileira, Calabar já teve 23 edições. A peça teatral ( musical) "Calabar- O elogio da traição ", foi representada em Belo Horizonte, em 2009 com a produção de Athenas Produçoes, no teatro Cesciatti ( Palacio das Artes ) Um belíssimo espetáculo com o ator Menotti Orlandi representando Mauricio de Nassau !
Obrigada Chico!! Pelos anos de genialidade.
Mi - Cps, 19/06/10
Filho de Sergio Buarque de Hollanda um historiador brasileiro que dirigiu o museu do Ipiranga e lecionou na Universidade de Roma.
Mas, como diz o Chalita: "o fruto nunca cai longe da árvore".
Em criança, Chico teve contato com grandes personalidades da nossa cultura, que frequentavam sua casa, como: Vinicius de Moraes seu parceiro mais tarde; Baden Powell e João Gilberto. Influenciado por sua mãe a pianista Maria Amélia Cesário Alvim e por sua irmã Miúcha, grande ícone da Bossa Nova.
Chico começou a publicar suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Em 1969 abandonou o 3º ano na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), motivado pelo clima de repressão que tomava conta das universidades após o golpe de 1964.
No ano seguinte, Começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e gravou pela RGE o primeiro compacto, com canções como Pedro Pedreiro e Sonho de um Carnaval. Desde então, não parou mais de compor e de se apresentar em festivais internacionais de música, além do programa O Fino da Bossa, da TV Record. Ainda em 1965, conheceu Gilberto Gil em um bar, reduto paulista da Bossa Nova. Em um show estudantil, conheceu Caetano Veloso, que se entusiasmado ao ouvi-lo cantando Olê, olá.
Em 1966 no II Festival da MPB tornou-se conhecido no Brasil inteiro pelo 1º lugar de sua música A Banda, interpretada por Nara Leão empatada com Disparada, de Geraldo Vandré. Daí começou a fazer história. Foi a revolução da música brasileira nos tempos duros da ditadura. Censurado por qualquer motivo, mas sempre driblava as barreiras da repressão. Críticas negativas nas entrelinhas de suas músicas, com cuidados redobrados nas composições. Então criou Julinho da Adelaide, pseudônimo para burlar a censura e compôs três canções: Milagre Brasileiro, Acorda Amor e Jorge Maravilha.
Foi obrigado a se exilar na Itália devido ameaças. Ao retornar ao Brasil continuou sendo um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização, através de suas letras. Fez parcerias com Tom, Vinícius, Toquinho, Milton, Francis Hime, Edu Lobo e Caetano.
Chico é muito respeitado pelo espaço conquistado na literatura e no teatro. Musicou para o teatro Morte e vida Severina e o infantil Os Saltimbancos, que se tornou muito popular. Escreveu as peças Roda Viva e Calabar, que foram censuradas pela ditadura, Gota d'Água, Ópera do malandro e os livros: Estorvo, Benjamim, Budapeste, que virou filme e ganhou o Prêmio Jabuti, e o recente Leite Derramado.
Hoje sua significância e referência não se apegam às necessidades de divulgações nas mídias populares, são 66 anos de verdadeira contribuição à história brasileira.
Revivendo a história sobre Calabar - o elogio da traição,
Peça teatral sobre a traição de Calabar, personagem da história brasileira que foi considerado traidor por ficar ao lado dos holandeses na guerra contra Portugal. Na década de 70, a dramaturgia nacional era alvo do mesmo patrulhamento que cerceava a liberdade de músicos, políticos, escritores, educadores e tantos outros. E neste contexto dois importantes artistas escrevem uma das páginas mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo.
Exemplo de utilização da matéria histórica como instrumento gerador de reflexão, Calabar - o elogio da traição, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, é relançado pela Civilização Brasileira com novo projeto gráfico. Escrita entre os anos de 1972 e 1973, no auge da ditadura militar brasileira e as vésperas do abril florido da revolução portuguesa. Alegoria histórica que se passa na época das invasões holandesas em Pernambuco, no sécXVII.
Aborda a questão da lealdade e da traição, numa clara alusão à conjuntura política do período em que foi escrito. Com sensibilidade e inteligência, a peça amplia o debate ideológico de forma provocativa, irônica, quase caricatural. Os conceitos de traidor e traição, se subjetivos tornam-se ainda menos palpáveis na obra de Chico e Ruy. Afinal, onde está a traição: nos mantenedores da ordem ou na rebeldia dos heróis? E quem são, de fato, os heróis e os vilões?
Fernando Peixoto, em 1980 relatou o texto “mal-comportado, e por isso estimula a elaboração de um espetáculo debochado, capaz de assumir a quase anárquica, mas organizada colagem e a justaposição de imagens e épocas".
A Peça dividiu o público, espalhou pontos de interrogação, dúvidas e perplexidades. Surpreendeu pelo atualizado deboche crítico, fundamentado num confronto realista com temas essenciais de nossa existência de nação social-econômica-política- culturalmente ainda colonizada num tímido mas empenhado esforço de construção de uma democrática cultura nacional-popular. Há sensibilidade e inteligência na utilização da matéria histórica como instrumento capaz de instaurar uma conseqüente reflexão que ultrapassa os limites de determinadas circunstâncias político-econômicas e amplia o debate ideológico de forma irônica, provocativa, apoiada em extrema e contagiante teatralidade, usando a postura crítica e a desmedida coragem de assumir o grotesco. A obra desmistifica o conceito de traidor e a noção vazia e abstrata de traição.
Texto
"E se vocês rirem de mim. Se eu for alvo de chacotas e chalaças. Se for ridículo na jaqueta de veludo.
Ou nas ceroulas de brim. Ou porque falo tanto de caganeira e bacalhau. É bom pensarem duas vezes, porque, ainda mesmo assim. Com lombrigas dançando dentro da barriga. Com a Holanda, a Espanha e toda a intriga. Eu sou aquele que, custe o que custar. Acerta o laço e tece o fio. Que enforca Calabar."
Tanto mar
A peça dirigida por Fernando Peixoto relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu ficar ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Era uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de trinta mil dólares e empregava mais de oitenta pessoas.
O Brasil sob a opressão era comum o uso das metáforas pelos artistas, a figura de Armando Falcão, Ministro da Justiça, encarregado dessa tarefa canhestra e denunciar a situação atual.
Chico mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia - serviu de mote para justamente questionar a chamada versão oficial.
Na peça, Domingo Calabar passa de comerciante que visava o lucro, traíra os portugueses e colonos brasileiros - para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro que na verdade era um conceito inexistente, no sécXVIII.
A intenção de Chico e Guerra porém, era denunciar um erro histórico, nem tinha a pretensão de promover uma revisão: o alvo era, justamente, o próprio regime militar, sua censura, os veículos de comunicação que, engessados pelas versões dos fatos sempre acordes com o sistema, passavam ao povo imagens que precisavam ser questionadas em sua veracidade.
Dentre as músicas que compõem o repertório da obra, algumas foram sucesso, como "Não existe pecado ao sul do Equador" interpretada por Ney Matogrosso; "Cala a boca, Bárbara", e outras.
A censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20/10/1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e proibiu que a proibição fosse divulgada.
O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme e 6 anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.
O livro - Publicado em 1994, pela editora Civilização Brasileira, Calabar já teve 23 edições. A peça teatral ( musical) "Calabar- O elogio da traição ", foi representada em Belo Horizonte, em 2009 com a produção de Athenas Produçoes, no teatro Cesciatti ( Palacio das Artes ) Um belíssimo espetáculo com o ator Menotti Orlandi representando Mauricio de Nassau !
Obrigada Chico!! Pelos anos de genialidade.
Mi - Cps, 19/06/10
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